segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Problemática do Idoso em Portugal

É facto incontestável as comunidades portuguesas envelhecerem progressivamente não só devido ao aumento absoluto do número de idosos, mas também e principalmente devido à diminuição do número de jovens. A sociedade portuguesa, envelhecida, tem menos jovens por diminuir a fecundidade e, consequentemente, a natalidade; este fenómeno é agravado pela emigração de jovens chegados à adultícia e pelo alongamento da longevidade dos velhos. Actualmente há mais caixões que berços e vão diminuindo o número de creches e de escolas e, concomitantemente surgem mais agências funerárias.

A Medicina prolongou a existência dos idosos mas não contribuiu para a sua felicidade nos seus últimos anos da sua Vida existencial, para a sua saúde biopsicossocial, para a qualidade da sua longevidade cujo bom nível está intimamente ligado á continuidade de uma actividade com sentido social, a qual mantém laços afectivos de comunicação inter-individual de respeito mútuo; pelo contrário, impera a cultura de pseudobenefícios supostamente encontrados na reforma.

Na sociedade portuguesa, o grupo etário de maior crescimento, o situado entre os 70 e 85 anos, é o que sofre mais inactividade e marginalização e hoje centenas de idosos têm mais de 100 anos de idade cronológica.

Não é o Senescente que está em decadência; são os critérios de valor de uma comunidade alienada da sua vocação humanista antroposófica sustentada por valores utilitários; mas foram estes valores que o Idoso, hoje marginalizado, outrora alienado em precariedades, defendeu, sustentou e ajudou a construir, naqueles tempos antecedentes.

A Pessoa, desde idades de infância tem sido colonizada por uma pedagogia psicossocial ao serviço de classes sociais voltadas para o “ter mais” com prejuízo do “ser mais”; para o conseguir, a classe social dominante tem criado mitos que levaram o Homem a admirar (“ad-mirar”) o “ter mais” e o alimentaram no gosto pela competição dirigida a um êxito de ascensão ao “ter” confundido no Ser, favorecendo-lhe o egocentrismo e o egoísmo relacionados com o mundo material, e favorecendo-lhe também a alienação do Ser; assim o ser humano passou a valer não pelo que É, mas sim pelo que tem, aprendeu a felicitar-se com os “teres” e assim tem entrado em falência, na senilidade. Neste clima social, a convivência do “poder” com o Amor ao Próximo, com o Humanismo, está dificultada. Todos nós devemos ter consciência desta triste factualidade, a fim de mudarmos este contexto psicossocial no qual todos nós, senescendo inconscientemente, aceitamos a coisificação do ser humano, conferindo-lhe uma valia de apenas instrumento de produção económica; este contexto é a génese da marginalização que empurra o Idoso para o esquecimento e, assim, para uma existência morta; ninguém pode viver no esquecimento. “Existir sem ser visto é uma espécie de morte” e existir sem viver a existência é suicídio, ou homicídio quando imposto pela comunidade.

Os idosos, por serem marginalizados individualmente, por possuírem o ego fragilizado e por perderem motivação e combatividade ditada pelo bom senso, têm dificuldade em formar uma classe de pressão a fim de obterem ou de conservarem o seu lugar na comunidade; por isso e para isso necessitam de uma instituição que os represente perante os governantes.

Não há justificações aceitáveis, como sejam as relacionadas com a actual turbulência económico-financeira, porque não há valores materiais nivelados com o valor do Ser humano em sua real dimensão psicossocial, histórico-cultural e espiritual. Os idosos sofrem fundamentalmente e sucessivamente de Diferença, Marginalização, Isolamento, Solidão, Indiferença, Depressão, Silêncio de ruina, Esquecimento, Desistência e Morte.

Terão os governantes deste País conhecimento desta consternadora situação? Se tiverem e não sentirem o sofrimento desta Gente, são incapazes de amar por défice de afectividade; mas, se o sentirem e nada fizerem, são deficientes, deficientes éticos por défice espiritual. Esta sucessão de comportamentos incidentes e inerentes no Idoso têm, por corolário, três síndromes tão bem caracterizados quanto mascarados:

  1. Medo de ansiedade perante o desconhecido – a morte;
  2. Desgosto e depressão perante o conhecido – a velhice;
  3. Vergonha por perda narcísica – a recusa da sua dignidade, como Ser humano.

Nesta problemática que realça a dor moral do Idoso, além da sociedade, além das aprendizagens, além dos governantes e do próprio Idoso, também os médicos devem ser responsabilizados. A finalidade da Escola Médica deveria ser ensinar o futuro médico a bem comunicar com quem sofre; o maior drama da Medicina é o médico continuar a olhar linearmente para a doença sem perceber que esta é a linguagem do Idoso que, através do seu corpo, lhe pede ajuda para o seu sofrimento, a sua angústia, a sua solidão, o desprezo a que o sujeitam no esquecimento; sem perceber que o Idoso vive a sua Dor, para além da biofísica, num “futuro” feito de angústia no qual há ruminações de morte; sem perceber que a sua doença é já uma tentativa, a sua tentativa, de se curar; sem perceber que o Idoso sofre essencialmente do pensar e do sentir, - o maior dos sofrimentos.

A classe social que maior significado tem para o Idoso é a Família que deverá sempre ter presente que ajudar o Idoso não é substituí-lo no que ele possa fazer; ajudá-lo é permitir que ele continue a viver as suas experiências confiadamente, em liberdade, sem inibições; é alimentá-lo na esperança de poder sempre superar-se. Deverá saber também que o seu familiar idoso é um ser diferenciado, porque idêntico a Si mesmo, pelo que lhe deve conferir o direito de ele ser o que É e não o que entenda ou o que deseje que ele deva ser; porém, infelizmente há alguns velhos que, por não amadurecerem, devem ser orientados nos seus comportamentos; refiro-me exclusivamente àqueles que só envelheceram e se transformaram em pretorianos do passado, àqueles que convertem o mando em tirania quando, sedentos de poder, julgam que o poder se lhes escapa; não aprenderam que a tirania é um percurso sem fim nem esperança.

Jovem, Tu que por enquanto vives a tua juventude, não te desprezes em antecedência, não te humilhes em antecipação, esquecendo a existência do Velho ou desvalorizando o envelhecer. Tu estás a envelhecer.

Ser velho é um privilégio; ser jovem é um compromisso.

Luta hoje pelo que desejarás amanhã para a tua velhice. Ajuda com vigor e com fé, aquela fé que não dá certezas mas estimula a acção, a construir uma sociedade que servirá os teus interesses que estão chegando do futuro.

Ultrapassa o medo que a velhice te imprime e que te leva a segregá-la, a esquecê-la ou a ignorá-la.

Despreza a beleza estereotipada por inexpressiva. O Ser humano só tem uma cara quando a existência, vivida com emoções, lhe risca a face; essa é a Beleza.

Tu, meu querido Velho, não te avalies pelo que perdeste; antes aproveita o muito que ainda tens de válido para ofereceres à Comunidade, onde todos nós nos situamos.

E tu, Sociedade, pede, não desprezes, aceita e admira a riqueza que os teus velhos querem oferecer-te.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Metamorfismos da Senescência, uma Problemática de Perspectivas

A senescência relativa à existência do Ser Humano é um processo biopsicossocial que se inicia na concepção, prossegue no nascimento, na infância, na adolescência, na adultícia, na senilidade e termina na morte. É um processo que actua durante toda a Vida existencial em progressivo desígnio de libertação e autonomia seguido de involução, também progressiva, na qual há perdas biopsicossociais em razão inversa àquela em que foram adquiridas, rumo à senil(idade).

Este dinamismo metamórfico existencial desenvolve-se condicionado aos espaços e aos tempos em que o ser humano se situa, em dialéctica.

Neste involuir o Senil, começando por desprezar o presente e recear o futuro, retrocede para espaços e épocas antecedentes por ele vivenciadas, nas quais tendencialmente se fixa e vive porque lá, neles, ficaram retalhos da sua vida existencial.

É este um comportamento reactivo, de cariz teleológico, à sua existência, agora morta por sofrimento progressivo de diferença, marginalização, isolamento, solidão, indiferença, depressão, silêncio de ruína, esquecimento, desistência e também, muitas vezes, doença cognitiva-afectiva alzheimeriforme.
É que os tempos e os espaços valem só o seu conteúdo; tempo sem fenómenos não existe, nem espaço sem factualidade. Por isso, o Idoso encontra-se lá e lá experimenta alguma qualidade e justificação para continuar a viver a sua existência.

Este conceptualismo é mais que realidade; é Real, absoluto e é mais que necessário; é imprescindível no pensar a humanitarista assistência ao Idoso, permitindo que ele continue a viver as suas experiências confiadamente, em liberdade e autonomia numa ambiência de qualidade tão boa quanto possível.

Compreender o Idoso é uma problemática de perspectivas e é uma das nobres missões do médico geriatra. Há porém dificuldades.

Porque não é exequível deslocar as vivências do Idoso, fixado no passado, para o tempo presente no qual ele não se revê e encontra desorientação temporo-espacial, tempo incompatível com o seu misoneísmo, com as suas dificuldades adaptativas e a sua bradipsiquia, teremos de ser nós, médicos e cuidadores a deslocarmo-nos aos seus ambientes passados; aqui haverá encontro, entendimento, prazer restituído, vivência gratificante, melhoria dos seus défices psicológicos. Para tanto dispomos de dois instrumento primordiais que são mais “psicomatéria” que matéria prima concreta; eles aproximam-nos do Idoso e permitem que ele revivencie o seu tempo através de diálogo que preencherá algumas horas do seu dia. São eles a música e a fotografia desta época. Esta música, para o idoso não é som para os ouvidos, não é som escrito em pauta; é principalmente sensações, alegrias, paixões, melancolias, erotismo, factualidades, vivências, reminiscências inconscientes agora consciencializadas, reocupações, VIDA. A fotografia dos tempos e dos espaços em que o Idoso se situou são também óptimos auxiliares de revivescências.

O diálogo que resultará destas diligências deverá ser iniciado espontaneamente pelo Idoso e que nunca seja esquecido que dialogar é mais saber ouvir que saber dizer; devemos permitir que o Idoso mitigue a sua necessidade de falar, o que lhe mobilizará a cognição, a memória, a afectividade e também a motricidade.

Percepcionaremos a época e o espaço nos quais o Idoso se fixou não só pela informação de familiares, mas também pelo que o Idoso diz, pelas suas reminiscências e lamentações, e ainda pelos auxílios histórico, geográfico, cultural e o dos “usos e costumes”. Estas terapias, em alguns casos, recuperam para o Idoso tempos mais aproximados pela paulatina memorização das suas vivências, a partir da época em que se fixou para a actualidade; oferecem-lhe qualidade de vida existencial, menor sofrimento e melhores performances comportamentais. Beneficiam também o cuidador protegendo-o da “síndrome burnout”.

A senilidade não deve continuar a ser involução que isola; terá de ser desenvolvimento que socializa, terá de ser encontro, contemplação, humanização. Afinal onde se encontra a força do Ser Humano? Será só no impulso inconsciente inicial para a existência ou será também no desenvolvimento da Vida existencial?

A decadência relacionada com o senescer é principalmente biológica, não é a da verdadeira dimensão do Ser Humano – a espiritual, que é a sua Essencialidade.  Sejamos conscientes de nós próprios.

sábado, 13 de outubro de 2012

Saúde - Doença - Ser Doente, no Idoso


O conceito essencialista de Ser humano entendê-lo-á como entidade espiritual e, por isso, como “Ente abstrato” situado no Tempo; no conceito existencialista, o Ser humano, além de Ser, tem existência conferida pelo seu corpo que ocupa espaço e tempos. Assim, na perspectiva da Medicina, o Homem só pode ser entendido na sua globalidade biopsicossocial e espiritual em situação temporo-espacial e em dialéctica que lhe confere ser também Ser cultural e Ser histórico; Ele contém nas suas ancestralidades Consciência Teleológica da Espécie, expressa no que chamamos “instinto de conservação da Vida”, significando a capacidade inconsciente de manutenção da continuidade da Vida existencial, fiel ao cumprimento dos imperativos finais de perpetuidade da Espécie.

A cisão dualística em Ser e corpo, Eu e os outros, sendo indesejável e só aparentemente válida, é necessária ao estudo do Ser humano. Para estudar é imprescindível, por incapacidade linguística, dividir mas, sem esquecer o conceito de globalidade, sem que mentalmente se deixe de unificar.
Desgraçadamente a escola de ciências médicas, despreocupada, transmitiu-nos noções de cariz dualísta que toldam a transparência do que é real: doença e Saúde, Doente e doença, profilaxia e terapia, evidência e intuição, ilusão e realidade.

Na relação com o Doente, durante as nossas lides, que diferença poderemos encontrar entre a realidade de uma ilusão e a ilusão de uma realidade?!
O concreto e a evidência, não raras vezes, são aparências, superficialidades lineares, são apenas validades, apenas realidades; e digo “apenas” porque o sufixo “idade” confere ao vocábulo, temporalidade; com efeito, “validade” não significa “Verdade”, vocábulo este que contém perenidade; nem “realidade” é o mesmo que “Real”; o Real e a Verdade escondem-se além das aparências sensíveis, são conceitos absolutos e, por isso, inatingíveis e incompatíveis com a Vida existencial. Todavia, estas falsidades e precaridades são-nos imprescindíveis na nossa práxis diária e mesmo em toda a nossa Vida existencial; por conseguinte, não as dispensaremos, mas tenhamos consciência do seu dúbio e limitado valor na compreensão do Ser Doente sofredor.

E doença, o que é?  Quem é o Doente?  O que é Saúde?  

O envelhecimento das comunidades devido não só ao aumento do número de idosos (o absoluto e o relativo), mas também e fundamentalmente à diminuição do número de jóvens, consequência da diminuição da natalidade pelo declínio da fecundidade e pela interrupção voluntária da gravidez, e principalmente devida ao fenómeno da emigração, coage-nos a questionar se os critérios de causalidade que nos têm condicionado, continuarão válidos.
Esta civilização de comunidades envelhecidas, vítima de políticas subvertidas a um desvirtuoso economismo por elas iniciado, que sustenta um agigantado consumismo, confere à doença o estatuto de “coisa-de-mais-valia”, com prejuízo para o Doente sofredor e para o acto-médico e com desvirtuação da Medicina.

A Saúde deve ser entendida como equilíbrio instável e nunca como equilíbrio estável; na estabilidade há conteúdos de morte; numa comunidade, enquanto a juventude e a adultícia a convulcionam com criatividades, a velhice estabiliza-a numa estagnação; a estabilidade, quando duradoura, só na morte se encontra. Saúde é desequilíbrio, inerente à Vida existencial, com capacidades de reequilíbrio.

Ser Doente é Ser perturbado e, por o ser, é também perturbante, perturbação consequente de dialéctica entre a Pessoa e o meio eco-social e também entre a Pessoa e ela própria. O comportamento do Ser Doente a reagir à sua perturbação, na recuperação do seu equilíbrio pode expressar-se em doença. Isto significa que a Pessoa tem doença por ser Doente; não é Doente por necessariamente ter doença e, não raras vezes, até tem doença para não ser Doente. Não obstante, por vezes, perturba-se e É Doente por ter uma doença, se tiver conhecimento que a tem.

Disto se infere que a doença contém uma finalidade teleonómica comum a todo o comportamento do Ser humano, a qual é a de preservar a Vida existencial, pela restituição da Saúde, do equilíbrio. A doença é sempre uma reactividade contra o agente causal, directamente proporcional à vitalidade e á capacidade da Pessoa que a expressa; quando a doença é frágil nas suas expressôes sintomáticas, como acontece no Senil, ela não se cumpre nos seus objectivos e, quando assim é, o prognóstico é reservado e prenuncia morte. No Idoso, a doença é insidiosa, silenciosa, frágil e, por isso, dificulta o diagnóstico que por vezes é tardio. A doença, como comportamento do Ser Doente, é dependente das camadas histórica e cultural e também da época e do espaço geográfico em que o Doente está situado; é po isso que ela não é igual em todos os povos, nem em todo o Ser humano do mesmo povo; nem a mesma doença na mesma pessoa, é  igual no passado, no presente e no futuro, não obstante o presente e o futuro, dessa mesma doença, serem influenciados pelo seu passado; mas, em todo o Ser humano a doença é sempre vivida, para além da biofísica, numa perspectiva de futuro angustiante e, no Idoso, com ruminações de morte, não raras vezes, obsessivas, quase sempre tingidas de depressão. Isto exige que a doença seja personalizada principalmente no Idoso que é Ser fortemente diferenciado. 

Tenho por pertinente, oportuno e necessário, desde já, esclarecer que estes conceitos de doença e de Ser Doente têm por objectivo fundamental guiar-nos na acção de ajuda ao Doente, na farmacoterapia e em outras terapias; necessariamente terão de ser personalizadas e adaptadas ao espaço e ao tempo em que o Doente se situa e deverão aplicar-se muito mais de  acordo com as intenções e com a perturbação que o Doente deixa transparecer durante a consulta, do que com a doença.

Sabemos ainda muito pouco da doença; todavia, do Ser Doente e das terapias sabemos muito menos. 

Para a relação Médico-Doente, a doença é o veículo de comunicação; deveria ser sempre o diálogo afectivo na relação terapêutica, aqui deveria iniciar-se a terapia. Continuamos erradamente a necessitar da doença que justifique a permissão do diálogo entre Doente e Médico e, por outro lado, o diálogo é cada vez mais dificultado pela imposição de normas ditadas por políticas da saúde, as quais insidiosa e intencionalmente se mesclam e se fundam nas problemáticas do consumismo, exigindo que o Médico se comprometa cada vez mais com mais doentes e que supostamente os “observe “ em cada vez menos tempo e assim, a Medicina não acontece. Medicina não é fachada; é missão profissionalizada substancionalizada em psicomatéria cognitiva-afectiva, em humanismo alicerçado em mística que felicita quando não nos ocupamos apenas da doença mas também e principalmente do Doente.

Para o Médico, a doença é o conhecimento que ele tem dela. A doença deverá ser interpretada como psicossomatismo; não raras vezes, é linguagem incisiva, enérgica expressão corporal daquilo que não foi verbalizado, é o reequilibrar da relação inter-individual perturbada e, quando a relação é nula, é o grito de súplica do Idoso para reocupar os outros consigo.
Nesta reactividade de luta pela recuperação da Saúde, em qualquer idade, a doença manifesta-se, preferencialmente, naquelas áreas corporais que, no início, foram atingidas no processo do nascimento: - a pele, pelo atrito ao atravessar o “túnel vaginal”;  os sistemas cárdio-circulatório e respiratório pela onfalotomia;  o aparelho digestivo, pelo início das suas actividades funcionais, quando o bébé começou a mamar; em síntese, quando o nascido inicia a sua “embrionária” autonomia.

A independência e a autonomia têm o seu prêço de complexidades; eis a primeira informação, não captada por inconsciência, na Vida existencial do Ser humano.

A Terapêutica da doença nunca deverá dificultar a acção do Ser, fiel à Consciência Teleológica da Espécie; quero dizer, a terapêutica não deve contrariar as naturais linhas do reequilíbrio, isto é, devemos recusar terapêuticas que e quando interferirem no benéfico e natural esforço de cura, como sejam antieméticos, antidiarreicos, antipiréticos, anti-inflamatórios, entre muitos outros.
A nossa atitude derá ser expectante e de ajuda, de colaboração com a natureza, administrando o fármaco só quando a evolução da síndrome mórbida o exija; a farmacoterapia não cura, mas ajuda a natural e espontânea recuperação da Saúde, quando as defesas são frágeis, quando a doença é inexpressiva, mas também quando a violência da sintomatologia pode pôr em perigo a Vida existencial do Doente. As lutas conduzem a victórias mas também a derrotas.
Enquanto no jóvem devemos considerar a violência expressiva da doença, na senilidade deveremos estar atentos à fragilidade da doença; uma sintomatologia débil, apagada, exige a intervenção farmacoterapêutica que, sendo imprescindível, é de difícil aplicação.
A necessidade da profilaxia, mais que noutras idades, agiganta-se no Idoso; ela deve ser concebida com antecedência, nos critérios de diagnóstico.
O Diagnóstico no Idoso, mas não só neste, deve ser, não o da doença, mas sim o do “Adoecer” e, preferencialmente, o do “Ser Doente”.

A senilidade, não sendo doença tal como a doença não é velhice, constitui todavia um terreno de fragilidades susceptível à instalação de multimorbilidade; a natureza destas fragilidades é não só biopsicossocial por dialéctica perturbante, mas também elas resultam de alterações orgânicas, somáticas e funcionais, consequentes de perda de massa protoplásmica metabolicamente activa, isto é, de células, de perda de corpo e, consequentemente, declínio fisiológico e inevitáveis transtornos metabólicos. Isto considerado, direi que a profilaxia no Idoso deverá fundamentar-se, com adequada antecedência, no combate ao declíneo psico-orgânico e manutenção do equlíbrio físico, psíquico e social na sustentabilidade da sua independência e autonomia.

A Gerontologia e a sua disciplina Geriatria são ciências multidisciplinares, são antropociências elaboradas com antropociências; elas prenunciam mutação nas ciências médicas, elas conferem uma renovação essencial à Medicina.

No Ser humano em senescência, o médico deverá sempre considerar cinco objectivos fundamentais:
  1. Manter a Saúde, através da senescência, pela actividade já que esta é condição “sine qua non” para uma longevidade saudável. Quando falo em actividade refiro aquela com intenções sociais e não a uma sem objectivos, refiro-me à mobilização da cognição, da afectividade e da motricidade na sua elaboração.
  2. Evitar  prioritariamente a morbidez,  o adoecer, pelo estudo das fragilidades do terreno; secundariamente, a doença e a granda invalidez social, entendendo-se por esta o impedimento da Pessoa viver na comunidade e para ela, como todos os outros, embora com alguns condicionamentos de capacidades, ou de possibilidades, isto é, das suas aptidões, respectivamente, centrais ou periféricas.
  3. Curar o Doente, entendendo-se por curar, reequilibrar, adaptar e minimizar ou anular a doença , se houver.
  4. Reabilitar a Pessoa para que se expresse em actividade adequada; note-se que reabilitar não é conseguir um ser humano esteriotipado, tal padrão convencionado pela sociedade, nem é exigir que ele venha a ser como quando era jovem; reabilitar a Pessoa é criar-lhe mecanismos  de adaptação, conciliá-la com Ela própria e solicitar-lhe o máximo possível das suas capacidades e possibilidades na construção dos seus tempos para os outros, evitando assim o egoísmo que, no Idoso,  é temível solidão afectiva; e estimulando também a curiosidade e o conhecimento através da comunicação pela relação inter-individual, evitando assim o isolamento na ignorância que é um modelo, também temível, de solidão cognitiva.
  5. Oferecer ao Idoso condições internas e externas para morrer com dignidade entre os outros, isto é, ajudar a Pessoa a morrer.


Desgraçadmente, sabemos muito pouco do Espaço que envolve a “morte”, o antes, o durante e o depois, nem o que é a “morte”, nem o que é o “morrer”. Mas podemos e deveríamos meditá-la.
Esta problemática não tem lugar neste colóquio; todavia, poderemos ocupar um pouco do nosso diálogo, que se segue, com este enigma tido, desde sempre, como “verdade” dogmática silenciada e guardada no baú dos tabús das religiões.

Termino com as seguintes lucubrações:
  1. O senescer deve ser meditado e a velhice deve ser aprendida em antecedência através de grande investimento no SER. Quem investe apenas no ter, investe  em valores precários e assim se conduz, alienado, para a falência na senilidade.
  2. Ajudar o Idoso não é substitui-lo no que ele pode fazer; ajudá-lo é permitir que ele continue a viver as suas experiências confiadamente, emliberdade, sem inibições; é alimentá-lo na esperança de poder Sempre superar-se, um sempre de todos os instantes.
  3. O Idoso é um ser diferenciado, idêntico a Si mesmo, irrepetível; assiste-lhe o direito de ser o que É, não o que se entenda que deva ser; tem o direito de continuar a ser inconcluso, imprevisível, livre , sensível e dotado de capacidade evolutiva.
  4. O estudo da senescência é uma problemátuca de perspectivas.
  5. A Gerontologia tem de habilitar-se para uma leitura interpretativa dos sinais biopsicossocio-histórico-culturais que se apresentam no Idoso com muitas máscaras comportamentais que vão do sofrer à doença, do sofrer à Saúde e do sofrer à morte.
  6. A Gerontologia deve comprender as diferenças e combater desigualdades psicossociais, fiel a uma intencionalidade de cidadania racionalizada e adequada.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A Consulta em Geriatria


Esta consulta deve ser uma relação bilateral médico-doente, horizontal e empática; por isso, também terapêutica. Se, depois deste encontro, o Doente não se confessar melhorado é porque a relação foi deficitária.

O Idoso deve ser aceite, de modo positivo e incondicional, mais como Ser doente do que como alguém que tem doença.

Ser doente é um ser perturbado, independentemente de ter ou não doença; a doença para o Idoso pode ser comportamento reactivo equilibrante, como seja o de reocupar os outros consigo, quando isolado ou quando o sofrimento da consequente e temível  solidão se anuncia

O médico, perante o Idoso sofredor, mais que saber dizer, deve saber ouvir com humildade intelectual e controle do seu egocentrismo. Saber ouvir é escutar, pensar e sentir o Doente, com emoção.

Durante a consulta, não deve interferir com palavras que roubem o tema ao Doente, nem deve impor um modelo pessoal de comportamento; antes deverá sempre respeitar o modelo de vida do entrevistado, transparecendo autenticidade solidária.

A resposta à informação solicitada pelo Doente deverá ter um efeito terapêutico; para o conseguir, o médico deverá considerar que, no diálogo, são mais importantes os silêncios que as palavras para entender, quando o Idoso diz, a realidade contida no que ele não diz; e, quando o Idoso diz “quero saber tudo”, é necessário saber porque é que o diz e o que, na realidade, ele quer saber. O médico deve conduzir o Idoso à consciência de Si, para que conheça as suas potencialidades e participe na sua própria cura, sendo certo que é sempre o Doente que se cura; o médico ajuda-o a curar-se mas, certo é também que, sem esta ajuda, é quase impossível a cura, assim como ainda ela não se verificará sem a colaboração do Doente.

Não esquecer:
I – que na senilidade não há doença que não seja simultaneamente do somático e do psíquico e que todo o órgão e a sua função estão intimamente relacionados com o Eu que, mediante o processo mental, se anatomiza no cérebro em expressões de emoção e de pensamento.
II – que o Idoso é um ser humano diferente da criança e do adulto que foi, mercê de 5 especificidades que o caracterizam:
  1. Diferenciação; o Idoso, através do seu senescer tornou-se, progressivamente cada vez mais diferente dos outros e mais idêntico a Si mesmo,  desenvolvendo e realçando as suas qualidades,  positivas e negativas, que o foram estruturando desde a infância 
  2. Lentificação (bradipsiquia e bradicinesia); o Idoso lentifica progressivamente os movimentos activos, os passivos e os reflexos, a cinética fisiológica, a percepção, o entendimento, a comunicação, os processos biológicos vitais e os instintos feitos de memória teleonómica da Espécie.
  3. Perda de capacidades adaptativas; a dificuldade de adaptação a novas situações aumenta com a progressão da senescência e do simultâneo declíneo da homeostase.
  4. Misoneísmo, isto é, críptico às mudanças, principalmente nas ideias e nos critérios.
  5. Disfunção dos afectos expressa em labilidade emocional por incontinências emocionais; muitas vezes as lágrimas não chegam aos olhos.
III – que a senilidade não é doença nem é uma idade; é comportamento. 
IV – que a senescência avançada (senilidade), não sendo doença, é factor de risco para a instalação de patologias, sejam elas anatómicas, funcionais, psicológicas ou psicossociais.
V – que a primeira etapa da consulta é avaliar o grau de autonomia e de independência do Idoso não só pela observação do sistema músculo-ósteo-articular, mas também pela qualidade da comunicação.
Quase sempre o ser humano entra na senilidade pela porta da psicopatologia que se ocupa da relação perturbada; a neurose é o seu modelo estrutural porque é uma perturbação da comunicação.
VI – que, para o médico, deve ser mais relevante o “ser  doente” do que o “ter  doença”. Ser Doente é estar perturbado e quem está perturbado é perturbante no ambiente eco-social em que se situa.
VII – que toda a doença no Idoso tende, por si só ou pelas sequelas, para a cronicidade e para a invalidez, pela perda de autonomia e de independência.
VIII – que o Idoso tem maior necessidade de reabilitação, a qual é mais lenta agora que em idades antecedentes.
IX – que no Idoso com doença há, invariavelmente, multimorbilidade e grande susceptibilidade para iatrogenias que resultam de fármacos, de inactividade, de psicoterapias mal formuladas, duma comunicação defeituosa ou até mesmo de carência de intenção; a palavra, quando inadequada ou mal formulada, é perigosamente iatrogénica e pode ter, no Idoso Doente, efeitos devastadores.
X – que o Idoso vive as suas doenças, as reais e as imaginadas, mas todas reais para ele, para além da biofísica, projectando-se  num futuro feito de angústia, no qual há ruminações de morte.
XI – que, no Idoso, a doença é insidiosa, tem frágil expressão, tem sintomatologia larvada, é de diagnóstico difícil e, por isso, não raras vezes, o diagnóstico é perigosamente tardio.
XII – que diagnóstico é o que predomina num terreno com multimorbilidade e que, no Idoso, a polipragmasia terapêutica é um grave êrro pelo perigo de iatrogenia devida a condicionalismos anatomofisiológicos, tais como:
  1. perda de massa protoplásmica metabolicamente activa, isto é, perda de células, o que significa haver menos consumidores para o fármaco, pelo que não deve ser prescrito  na  habitual dose para o adulto.
  2. défice de absorção devido à hipotrofia da mucosa intestinal.
  3. diminuição da albumina sérica.
  4. declíneo e lentidão  do metabolismo hepático.
  5. declíneo da eliminação renal.     
XIII – que, se não for abordado o conflito psíquico, a farmacoterapia  prolongar-se-á e o risco de iatrogenizar o Idoso aumenta.
XIV – que a patologia e a terapêutica no Idoso nunca são redutíveis ao biológico, nem ao psicológico, nem ao social. Elas englobam doenças da comunicação, agressões psicossociais, perturbações funcionais e anatómicas, alterações psicológicas e doenças iatrogénicas e sequelares todas intrincadas pelo que, a consulta do Idoso terá de ser, necessária e imprescindivelmente, transbiopsicosócio-cultural.
XV – que o Idoso quérulo acrescenta às suas doenças sofrimento de inadaptações, de desamor, de inibições, de reminiscências e de medos relacionados mais com o morrer do que com a morte.
A memória no Idoso não é recordação, é antes presentificação permanente e dolorosa de emoções que investem relações e imaginações vividas no passado no qual se fixa. A convergência dos globos oculares traduz um comportamento de fuga para a sua interioridade povoada por aquele passado, moderador da solidão que lhe vive nos seus dias de existência morta.

Resulta assim que a consulta de Geriatria exige do médico disponibilidade e tempo para ver, ouvir e sentir o Idoso que sofre; exige do médico humanismo e solidariedade que é o novo rosto  da Medicina rica de competência, de sabedoria e de compaixão.

sábado, 14 de julho de 2012

Adenda/Comentário à conferência “Seniores – um novo estrato etário e social” de Daniel Serrão


O corpo, com a funcionalidade e as factualidades que lhe são inerentes, é o corolário do nosso pensamento e da nossa emoção.

A motricidade (locomoção) é consequência directa de aptidões periféricas, o mesmo é dizer, é consequência da possibilidade do sistema músculo-ósteo-articular mas, este não funciona sem as aptidões centrais, quero dizer, sem a capacidade  do sistema nervoso central, isto é, sem que o cérebro segregue pensamento e emoção (motivação). São com estas tres acções (cognição, afectividade e motricidade) que o Ser humano, em dialéctica e situado no espaço e no tempo, elabora todos os comportamentos e estes só serão saudavelmente assertivos se as acções se expressarem em alostase/homeostase porque, quando uma destas acções está perturbada as outras estarão comprometidas e, em consequência, os comportamentos fragilizam, perturbam-se também.

É neste contexto que deve ser meditada e estudada a senescência do Ser humano.

O que caracteriza o envelhecimento é uma progressiva mudança comportamental, expressa  em perturbação da relação inter-individual, traduzida em perdas de autonomia e de independência, com alteração da comunicação; é um declíneo dos comportamentos e é muito mais um neuroticismo que somatismo.

Afirmar que ”não é o envelhecimento corporal que conta, é o envelhecimento do cérebro” ou que  “os corpos podem estar perfeitos mas o cérebro deixou de funcionar porque envelheceu” ou ainda  “As pessoas são cérebro...”, não é correcto, são alienantes incorrecções. Então, o cérebro não será também corpo? Não é matéria neuronal?  Não é massa protoplásmica metabolicamente activa?
O número dos idosos é muito superior ao dos dementes; corolariamente, o Idoso não só não é senil por ser demente, como também não é demente por envelhecer.
Uma coisa é doença, outra é senescência; e diagnóstico é o que predomina numa pessoa perturbada e/ou com multimorbilidade. Este critério afasta a iatrogénica, indesejável e funesta polipragmasia terapêutica.

Considerar a Pessoa senil por ter atingido a idade de 65 anos é também aberração social; este conceito é convenção que não só tem por objectivo satisfazer interesses políticos sócio-económicos despidos de humanismo, como também injuria valores antroposóficos.
Velhice não é uma idade, não é patologia; é comportamento.
O Ser humano possui um corpo que lhe confere existência por Ele vivida em comportamentos. Ele senesce no tempo medido e amadurece  em tempo vivido; há idosos mais envelhecidos que velhos, envelheceram mas não amadureceram.
Em actividade  vivemos e “morremos” em inactividade. Existir sem viver a existência é existir esquecido numa ante-câmara da “morte”; há idosos que existem, mas não vivem.
 Os senescentes sofrem, sucessivamente, de: diferença, marginalização, isolamento, indiferença, solidão, depressão, silêncio de ruína, esquecimento, falência do corpo, desistência, “morte”.
Este perturbante conteúdo dos tempos finais da existência  do Idoso traduz-se em lágrimas que inundam a sua interioridade mas raramente chegam aos olhos até que, no estádio de “falência do corpo”, a doença seja manifestada e venha cumprir a “desistência” e justificar a “morte”.

Quando a Sociedade tomar consciência de Si e o permitir,
Ser Velho poderá ser, para todos, um privilégio e,
Ser Jovem tem de ser um compromisso.

domingo, 18 de março de 2012

Vocação, Ética e Lucidez em Medicina


A vida que não é examinada não é merecida porque, sendo inconsciente de si, não percepciona a oportunidade.
Na dialéctica entre a ciência médica e as leis da natureza, são sempre estas que prevalecem.
A ciência médica vale pela procura da Verdade que nunca  alcança; ela conduz-nos apenas a validades que são precaridades, falhadas cópias de falsidades, mas é também a nossa imprescindível muleta que justifica e valida os nossos actos.
A experiência é enganosa; ela e o erro nela escondido são os nossos mestres, quando meditados e consciencializados.
As noções aprendidas na Escola Médica são apenas ferramentas, material utilitário para, perante o Doente, pensar e fazer Medicina; elas não devem ser aplicadas, na sua fria indiferença, o que seria apenas aplicar ciência médica dirigida apenas à doença. Medicina é muito mais e dirige-se ao Doente. Uma doença é um ter; o Doente é SER.
A mesma doença não é igual em dois doentes nem, no mesmo doente, é igual no passado, no presente e no futuro porque, considerando-a num presente einsteiniano, a doença é modelada pelo Doente no seu caminhar peloTempo.
Diagnosticar é entender e sentir o sofrimento do Doente, com ou sem doença; a convicção diagnóstica é o produto da conjugação de sabedoria com  intuição,  opinião,  crença e  afecto, modulados pelo critério da humildade, perante o Doente "Objectum".
A terapêutica do Ser Humano sofredor não é só ciência; é também compaixão, intuição e muita sensibilidade veiculadas no diálogo, fruto da relação empática gerada pela observação recíproca doente-médico.
Observar é relacionar-se, é o despertar do afecto que estimula o pensamento e também o entendimento de sons para-linguísticos, vocalizações do sofrimento feitas de vogais (ai! ui! ó!) que as consoantes moderam formando palavras realçadas validamente pelos silêncios. É esta dialéctica palavra-silêncio concretizada em linguagem corporal gestual  que solicita a terapia onde se encontra o afecto que confere razão e essencialidade à Medicina.
A Medicina é muito mais uma missão que uma profissão. A dignidade e a ética do médico revelam-se só quando ele entende e sente anancasticamente a sua entrega em disponibilidade permanente, através de toda a sua Vida existencial. É por isso que o médico não deve, não pode, sujeitar-se a horários convencionais; o sofrimento também os não tem; é por isso também que a polémica conflituosa que advém do economismo relacionado com a práxis da Medicina é aberrante porque ferida de irracionalidade e conspurcada por minudências inadequadas à qualidade da produção. O Trabalho não é vendível; vale sempre muito mais que o dinheiro que lhe é atribuído. Esta exatidão axiomática de princípio, investida de perenidade, é particularmente agigantada no exercício da Medicina pelo que, constitui uma afronta o abrangimento desta área pelo sindicalismo; o sindicato é indispensável ao operariado e a universos análogos, como o dos “médicos profissionais” com as suas problemáticas económicas, de greves, de “horas extraordinárias”, de condições de trabalho, etc., etc.,etc..
A profissão é paga por valores convencionais relacionados com a unidade de tempo; a Missão vive fora das convenções e o seu tempo não é o tempo do salário. O médico dado à Medicina na sua totalidade deve usufruir,  para sua libertação em benefício de outrem, de independência económica; não deve ser pago pelo trabalho realizado mas sim pago para, liberto, poder trabalhar.
É um grande privilégio ser médico quando a sua interioridade se verte, em compaixão universalizada, na entrega ao sofrimento do Ser- humano, sem horários perturbantes e interesses menores, em catatimia compassiva. Exercer Medicina é um transcendentalismo epistemológico aplicado ao Doente; é um misto de ciência e conhecimento numénico, aquele que vai além das aparências sensíveis.
Este conceptualismo deve preencher, em permanência, a interioridade do Médico, conduzindo-o à dignidade e à resiliência para uma boa saúde mental, força espiritual e Felicidade.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Álgebra da Economia - Válida para 25 anos


Menos fecundidade = menos natalidade;
Mais saúde = mais anos de “vida”.

Menos natalidade + mais anos de “vida”=  envelhecimento social = menos produção e mais pobreza.

Menos natalidade = menos puericultura e menos adolescentes.
Menos adolescentes = menos escolas, menos contestação social que renova e promove, e menos adultos.
Menos adultos = menos trabalhadores e menos impostos.
Menos impostos = mais miséria psico-sócio-económica.

Ter hospitais suficientes, escolas para todos, satisfazer as necessidades da comunidade, está facilitado quando a população diminui, a natalidade é reduzida, o SNS encarece, e a procura declina porque a pobreza aumenta.

O pântano nacional com mais caixões que berços.