quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Veneza

Havemos de seguir em frente o itinerário de regresso a Veneza.
Hei-de palmilhar aquelas ruas marginais que me levaram ao cais, onde encontrei a alma veneziana de gente sem nome, do marinheiro, do estudante, do artista, do boémio, do intelectual, do angustiado, - do povo de Veneza.
Ao entardecer, quando começa a haver poente no canal e o Relógio da Torre badala as sete, hei-de sentar-me convosco numa daquelas mesas que atravancam São Marcos, a saborear o gelado com o prazer do costume mas tão diferente do habitual, naquele lugar e naquela hora, porque alheado na emoção causada pelo fascínio daquela praça - chic prostituta que, ao crepúsculo, entrega com elegância e sensualidade o seu corpo à multidão desconhecida e promíscua a deambular, entre revoadas de pombos, ao som de melodias de Chopin, de List e Debussy vindas das Arcadas,executadas por castiças orquestras; e, à mesma hora e no mesmo lugar, entrega a sua alma aos que, já nostálgicos, partem nas gôndolas, e aos apaixonados, aos artistas e também a mim, emocionalmente refém dum fascínio que me perde no passado imagético feito realidade naquele lugar e àquela hora.
Havemos de voltar a viver São Marcos. Temos de regressar a Veneza.

Tempo

A Felicidade é conteúdo do Tempo, do Eterno Presente; disse-me Einstein, numa destas noites, em um inesquecível sonho.
No Tempo-Felicidade não encontro saudade de passados, nem incertezas do presente, nem a inquietação de futuro; não encontro a velhice nem a infância, não encontro a adolescência nem a adultícia -- interpretações de percurso pseudocientíficas, tempos de ilusões, momentos de alienação.
Continuarei Feliz no Tempo, tempo sem Princípio nem Fim, continuarei Feliz em Eternidade; mas hei-de voltar, dizer isto mesmo e prosseguir até ao limite, até além de mais além, até ONDE – virtualidade necessária às minhas cogitações e, pelas minhas limitadas aptidões, imprescindível nos meus curtos vôos com asas feitas de resquícios de “penas” que me habitam o inconsciente.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Paris

A emoção vagueava no atmosférico que unia os circunstantes anónimos que passavam, nos quais valores estéticos, culturais, humanos, eram traídos por um colorido pecaminoso de fascínio espectadorista que gritava Amor e Liberdade. A tontura febril dos deslumbramentos conferia uma catatimia ao ambiente de afecto que unia aquela gente em sentimentos de passado mítico, de anacronismos deliciosos feitos presente e projectados no futuro a cantar ansiedade de alegria de viver.
Foi uma noite interiorizada, em Paris, feita de sonho de mistérios mais reais do que a Rua onde me esquecia.

Memória

As mencionadas características referentes à memória nada têm de patológico; pelo contrário, expressam vigor e saúde mental.
O cérebro saudavel recebe informações, integra-as e trata-as de modo a aplicá-las eficientemente, respondendo assim a desejos e satisfazendo necessidades da própria pessoa.
É esta integração e este armazenamento a génese da memória cuja fidelidade, duração e incremento são tanto maiores quanto maior é a actividade cerebral exigida pela mente, isto é, pelo processo mental. Esta actividade psíquica, que deve ser repetitiva para que a memória se perpetue, consiste na conjugação da cognição com a afectividade, isto é, do pensamento com a emoção que o dinamiza e agiganta. É a perda de capacidade de admirar, de se apaixonar, conjugada com inactividade cognitiva que se verifica em muitos senescentes, que gera o esquecimento progressivo em razão inversa à aquisição do conhecimento,isto é, o senil esquece factos do tempo recente para o antigo; os últimos actos a esquecer são o de respirar e o de beber (mamar).
O cérebro regenera-se permanentemente pelo seu uso potenciado (trabalhar apaixonadamente); os neurónios regeneram-se preferencialmente nas zonas cerebrais mais usadas.
Aprendemos com o hemisfério direito do cérebro; memorizamos mercê da coordenação de várias regiões com destaque para o hipocampo, mas também com a amígdala límbica e com os lobos frontais, adquirindo aprendizagem, experiência e sabedoria, instrumental psíquico usado nos comportamentos extrínsecos e nos intrinsecos (o cérebro é o único órgão corporal que se pensa; pensa no pensamento); e comportamo-nos com o hemisfério esquerdo.
Como se infere, as suas preocupações traduzem-se em excelentes promessas futuras; elas expressam comportamentos que atrazam a involução das regiões referenciadas aprendendo, memorizando e agindo através da cognição , dos afectos, da memória, da intuição, da previsão e até, raras vezes, da premonição.
Tudo isto, na sua globalidade, é sabedoria, triunfo, alegria, felicidade; confere resiliência psíquica e consciência de Si.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A propósito de “Lentidão da Justiça”

A propósito de “lentidão da Justiça”

O Ser-Humano vale, aparentemente pelo que faz e realmente pelo que pensa e sente; não obstante o acto ser muito o resultado da qualidade dos pensamentos e das emoções do próprio, ele é também influenciado pelas opiniões e pelo conhecimento, nem sempre lúcido, que os outros têm dessa pessoa ou que esta deseja que eles tenham; neste caso, um ser-humano revela a sua personalidade, isto é, revela o que deseja aparentar, afim de que os outros confundam a aparência com a realidade.
É que o que parece não é porque, se fosse, não parecia, - era.
É habitual confundir-se carácter com personalidade; enquanto aquele é produto da nossa essencialidade, é psico-estrutura, esta, ao contrário do que se tem pensado, nem sempre é uma virtude, não é uma característica positiva dum ser-humano. Com efeito, o sufixo “idade” da palavra “personal-idade” indica temporalidade, precaridade, susceptibilidade de mudança de acordo com as circunstâncias, isto é, com os espaços em que a Pessoa se situa, e “personal” advém de “persona” – máscara usada na tragédia grega; isto é, a personalidade permite que o Ser-Humano cedendo às convenções, às tradições, a dogmas, à mentira, se adapte com grande volubilidade às ambiências, conforme as suas conveniências; a personalidade faz de Alguém ninguém.

Regressemos ao Ser-Humano perante a Justiça.

Sendo o Homem a sua cognição e emoção, estas influenciadas pela ambiência, principalmente a social, e simultaneamente também influentes da mesma, quando comete o ilícito não o comete quando age, mas sim no momento em que pensa, porque é o pensamento estimulado pela emoção que o conduz ao acto. Isto, conjugado com a morbidez da Lei e a sua disfuncional aplicação, é causa de enorme dificuldade do julgador, o que justifica e nos deve fazer compreender a apregoada lentidão. Mas também nos deve conduzir à tomada de consciência dos sentimentos e dos pensamentos que povoam a nossa interioridade relativamente ao acusado, os quais habitualmente estão feridos de intolerância ditada por ódio estrutural gratificante para o próprio, porque eles são pautados quase sempre por rancor, ódios, invejas, voluptuosidade em arrasar o Outro – o criminoso que necessita mais de ajuda que de punição. Porém, também eu repudío a lentidão da Justiça, não por desejos contaminados pelo ódio e exigentes de apressadas vinganças, mas sim porque a comunidade confunde, com grande prejuízo para o Ser-Humano, a qualidade de suspeito e de arguído com a de acusado e de Réu, e a de ilícito com a de crime, principalmente quando o que consubstancia o acto é a materialidade, é o dinheiro, como evidencia todo o universo da corrupção, de acusados e acusadores. Repudio a lentidão, também e ainda, gritando a minha angústia por ver punir um ser-humano 5 e 10 anos depois de praticar o crime, sendo certo que, nesse julgamento, é punida uma pessoa que não é a mesma de há 10 anos antes.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A propósito do tema “Progressos da Biogerontologia”

A propósito do tema “Progressos da Biogerontologia” do Prof. Manuel Carrageta (Tempo de Medicina de 26/10/09)

Os benefícios da restrição calórica foram já referidos, nos inícios do séc. passado por Walford que aconselhava, para uma Vida existencial alongada e saudável, comer o menos possível até atingir o limiar da desnutrição; baseava-se em investigações que então fizera em animais. Em síntese, uma dieta hipocalórica gera menos combustões, menos radicais livres de oxigénio, é propícia a estados meditativos e diminui o stress – causa primordial de toda a morbidez, por destruír capacidade imunitária, a homeostasia psicológica e o vigor espiritual.
O Ser-humano é, Ele próprio, o autor do metamorfismo do seu corpo; é o único responsável não só pela profilaxia, mas também pelas suas patologias e pela cura destas.
Entendo, por profilaxia, a manutenção do equilíbrio/reequilíbrio entre o Ser (essencialidade), o corpo e a ambiência e, por cura, a adaptação entre a Pessoa, o seu corpo e a sociedade em que está situada.
Estes deverão ser os conceitos médicos na especificidade da práxis gerontológica.

domingo, 17 de maio de 2009

Substítuição de Medicamentos

Carta Aberta à OM

As considerações que se seguem têm por objectivo complementar e justificar os reservados juízos emitidos no postal, já enviado, por ter tido dificuldades em expressar ideias num contexto maniqueísta e circunscrito ao referido postal; porém, desde já sublinho que discordo liminarmente e absolutamente das posições abusivas do farmacêutico e das diligências vagas e indecisas do Governo.

No acto médico, que é sempre terapêutico, não pode, não deve, haver interferências do farmacêutico, interferências negativas, destrutivas da crença na prescrição médica - expressão da relação empática Médico-Doente-Médico. Não obstante, pode e deve o farmacêutico dialogar com o médico prescritor, se necessário ao esclarecimento de dúvidas.

A insustentável polémica do medicamento alicerçar-se-á na ignorância ou incompreensão do Farmacêutico, ou este será motivado por preocupações latentes e propósitos sub-reptícios imorais e destituídos de ética, colocando interesses económicos acima da Vida existencial do Ser-humano sofredor?

Não se confundam as actividades do farmacêutico com as do Médico. Ao farmacêutico o que é do Farmacêutico - o fármaco; ao médico o que é do Médico - o Doente, a arte de curar e o Medicamento.

Todo o medicamento contém, em si, duas vertentes: 1. A farmacodinâmica, a qual se concretiza em reacções químicas entre o fármaco e o organismo do doente; esta é a faceta material, biológica, farmacológica, do medicamento em dialéctica com o corpo do Doente; é a faceta iatrogénica por vezes perigosa, nomeadamente no Idoso. Esta vertente é aprendida em Farmacologia, no Curso de Medicina; ela é diferente da farmacopeia, da farmacognosia e da farmacotecnia que são disciplinas do Curso de Farmácia; diferente é também a venda do fármaco a qual, sendo praxe exclusiva do farmacêutico (nunca do Médico), não tem qualquer relação com a prescrição, que é práxis empática, acto cognitivo e afectivo do Médico. 2. A segunda vertente do Medicamento transcende a faceta fármaco e contém, em si, a Intenção do Médico a transmitir ao Doente atravès não do fármaco mas sim do Medicamento - "imagem e semelhança" do médico que nele se prescreve.

Todo o comportamento de conveniência para o Próprio, e de prejuízo para terceiros, deve ser considerado numa perspectiva de causalidade retrógrada; frequentemente, são comportamentos miseráveis qe conduzem o Autor ao nível das comunidades biológicas prè-humanas. Um indivíduo de tal estrutura psicológica, estigma de pobreza espiritual, deve ser ajudado, deve ser conduzido anancasticamente para uma conduta moral. É este o dever da Sociedade em que o Governo e todos nós estamos incluídos. Não hesitemos; sentir-nos-emos felizes por o ajudarmos, por o tratarmos das suas deficiências e frustrações; mais tarde, ele nos agradecerá.