domingo, 18 de abril de 2010
sábado, 17 de abril de 2010
Investigação. Conceptualismo ou Cientismo?
Resumo
O Ser humano é SER e tem um corpo que lhe serve para se caracterizar como ser humano, para comunicar e para existir. O corpo é a materialização do SER; graças a ele, o Homem é entendido na sua globalidade sistémica, situado no tempo e no espaço e em dialéctica. O SER é Essencialidade; é a imagem e a semelhança de potencialidades psíquicas e espirituais em permanente aproximação do limite (inatingível por definição), não obstante paragens, hesitações e retrocessos; é o SER que nos confere universalidade, omnipresença. O SER/EU consubstancia a Vida, a perenidade, o Tempo com ou sem os tempos existenciais de cada ser humano encontrados na perpetuidade do Tempo.
A dimensão espiritual do ser-humano é autopercepcionada para além do corpo, através da consciência, com sentimentos, percepções, premonições, previsões, intuições e convicções, - sabedoria ancestral veículada em arquetípicas memórias transmitidas em silêncios segredados pelo Ser. Esta factualidade, sem base científica, tal como o científico tem sido entendido, não é, por isso, menos real.
O ser humano, o Eu, suporta um corpo que lhe confere existência e, enquanto existente, é consciente do conflito resultante do debate entre os seus pensamentos e emoções expresso na ambiência do espaço e do tempo em que se situa. Em sua incompletude, é consciente de ser inconsciente da sua essencialidade; de desconhecer o Processo Mental que, conjecturalmente ocupa o universo entre o Ser e o cérebro e realiza os comportamentos internos (inconscientes e conscientes) e os comportamentos externos da Unidade biopsicossocial, estes outros, já elaborados pelo cérebro em acções cognitivas, afectivas e motoras; sofre o atordoamento que consubstancia a permanente busca do Encontro com um deus, quiçá com Sigo próprio, por vezes consumado só na desistência do existir, numa exuberância de vida nunca antes experimentada.
O impulso, traduzido no cérebro em comportamentos estruturados pelo pensamento, pela emoção e pelo movimento, porventura não se inicia nele; é admissível que ele seja gerado em outra área da psique; - na Mente, isto é, no Processo Mental, como decisão da essencialidade do Ser. O cérebro não é mais que corpo, substrutura do Ser. Não obstante a sua incontestável importância e constante imprescindibilidade para a Vida existencial, ele não é a génese de todo o conhecimento, mas apenas do substruturado, apenas do conhecimento dimensionado pela psico-biofísica; não do metafísico. Todavia, ele é o único órgão corporal que se pensa a pensar nos seus pensamentos; ele, não conhecendo, é consciente do universo metafísico; em intelectualidade abstrata, toma consciência da inatingibilidade do limite, mas também se reconhece com potencialidades para dele se aproximar infinitamente, pelo pensamento catatimizado pela emoção – psicodinamismo com origem na “psicomatéria” nebulosa dum sentimento intuitivo. O processamento dos sentimentos, da consciência, da previsão, ou da premonição, ou da intuição que nos conduz, por exemplo, ao entendimento dum diagnóstico desconhecido, por inexistente nos tratados de Medicina, ou à cura incompreensível duma morbidez, não estará no cérebro mas sim, porventura, no Processo Mental que considero ser a articulação entre o Ser (a sua essencialidade) e o corpo (o cérebro); aqui, na corporalidade cerebral, a sabedoria veiculada nos conteúdos ancestrais do inconsciente sofrerá uma metapsicomorfose cognitiva, mediante a tradução bioquímica monoaminérgica, e a neurotransmissão iniciará, então, a sua realização factual, conducente à revelação, ao entendimento diagnóstico ou a cura do estado mórbido, inconcebível à luz da racionalidade, na satisfação da consciência teleológica da espécie, que se identifica com o instinto de conservação da vida (da Vida existencial, direi eu) que se expressa na continuidade existencial do Ser corporizado.
Não obstante o consciente e o subconsciente condicionarem a função cerebral na tradução dos impulsos do Processo Mental, eles são imprescindíveis na dialéctica psicossocial, no âmbito da ética, da moralidade e do convencional. A “psicomatéria” da espiritualidade do médico, enquanto entregue à missão que justifica a sua Vida existencial, molda-lhe a relação inter-individual na comunicação com o doente, ainda que sem palavras, apenas com a sua presença tornada presente com o olhar, o afecto, a compaixão; a partir de aqui, o gesto, o toque, a palavra realizam o “milagre” (entre aspas, sublinhe-se), numa ambiência de exaltação, de Felicidade mútua. Esta factualidade está também patente na assistência ao moribundo no trajecto para o seu momento de morte, assistência que ainda é rara e titubeante pela perplexidade e pelo assustador que ela é para o iniciado.
Esta desejável potencialidade do médico é corolário da contemplação, isto é, da tomada de consciência de Si; ele, através da meditação, conduz-se ao controle da sua interioridade cognitiva e emocional e, finalmente, aos estados metafísicos já referenciados.
Estes aspectos de investigação, não sendo consequentes duma observação experimental resultante dos clássicos e anacronizados critérios de Claude Bernard, são o produto de conceitos como os de Karl Popper que nunca recusou valor científico ao que, não sendo de imediato observável, contenha critérios epistemológicos que permitam a construção de quadros racionais de pensamento e de interpretação; que seja uma convicção formada pelas três noções epistémicas de Kant (opinião, crença e saber); e que não seja infirmado, após a análise do contraditório.
Esta minha proposição temática resulta ainda de conteúdos metafísicos encontrados na admirável expressão poética de Fernando Pessoa:
“Não meu é quanto escrevo”
“Enganado julguei ser meu o que era meu”
“De quem é o olhar que espreita por meus olhos? E quem continua vendo enquanto estou pensando?”
A poesia é uma preciosa fonte de conhecimento da interioridade do Ser Humano. Os poetas transmitem-nos o que a ciência não alcança.
Isto foi o que me moveu a apresentar-vos as minhas cogitações como contributo para a investigação em psiquiatria e neurociências.
quarta-feira, 17 de março de 2010
Ansiedades
Resumo
Ansiedade, característica do Ser-humano.
Ansiedade exógena ou normal ou ansiedade endógena ou patológica.
Ansiedade difusa com episódios de descompensação.
Parâmetros etiológicos da ansiedade (psicológicos, culturais, sociais, hereditários e metabólicos).
Fobia, sintoma mais frequente e característico da ansiedade (hipocondríase, sociofobia, agorafobia, pânico).
Diagnóstico da ansiedade e diagnóstico diferencial entre ansiedades normal e patológica.
Consequências da ansiedade patológica: tabagismo, alcoolismo, pulsão para drogas, depressão, morte prematura com doença cardio-vascular.
Terapêutica: aspectos psicológicos, sociais, educacionais, metabólicos e somáticos.
Ansiedade exógena ou normal ou ansiedade endógena ou patológica.
Ansiedade difusa com episódios de descompensação.
Parâmetros etiológicos da ansiedade (psicológicos, culturais, sociais, hereditários e metabólicos).
Fobia, sintoma mais frequente e característico da ansiedade (hipocondríase, sociofobia, agorafobia, pânico).
Diagnóstico da ansiedade e diagnóstico diferencial entre ansiedades normal e patológica.
Consequências da ansiedade patológica: tabagismo, alcoolismo, pulsão para drogas, depressão, morte prematura com doença cardio-vascular.
Terapêutica: aspectos psicológicos, sociais, educacionais, metabólicos e somáticos.
A obtenção dos lobos prè-frontais do córtex cerebral que, por hominização, distanciaram o Ser-humano da família taxonómica dos seus antepassados símios, catapultou o Homem para o futuro no qual Ele se projecta, o pensa e o sente em antecipação, num comportamento de previsão (prè-visão). Esta fenomenologia fez do Ser-humano um ser ansioso.
A ansiedade é um estado de preocupação (prè-ocupação); é uma espera desesperada de qualquer coisa, pensada e sentida, a chegar do futuro; é o estado de consciência da frágil condição humana perante o desconhecido; é o conflito entre a consciência de ser senhor-dos-seus-destinos e a submissão ao sentimento de ambivalência perante um fatalismo recusado e simultaneamente aceite. A ansiedade é a vivência duma realidade interna ou externa internalizada, é a sua interpretação cognitiva e afectiva vivida em perspectiva cronológica, na qual o ansioso mobiliza o capital de emoções e de conhecimentos, adquiridos e trazidos do passado, dos espaços e dos tempos em que se situou.
Todo o Ser-humano oscila entre o futuro e o passado, entre a ansiedade e a depressividade, e ansia-se e deprime-se na razão directa do seu humanismo. Assim, não é de estranhar que a ansiedade tenha ocupado médicos, psicólogos, sociólogos, antropólogos, filósofos, escritores e poetas e que todos se tenham empenhado em compreendê-la como característica do Ser-humano.
As expressões de ansiedade são extremamente frequentes. Um estudo que englobou 500 pessoas do concelho de Cascais, 280 das quais foram do sexo feminino, revelou expressividades de ansiedade, consideradas perturbantes, em 80% das mulheres e em 50% dos homens.
A ansiedade pode ser um estado normal, necessário e útil na promoção da Pessoa e na sua defesa perante uma ameaça, ou pode ter uma dimensão muito perturbante e, neste caso, o ansioso necessita de ajuda. Esta última é uma ansiedade que se manifesta desde a infância, é uma ansiedade difusa, permanente e estruturante das personalidades de quem a sofre; é uma ansiedade latente na Pessoa e susceptível de descompensações aos menores estímulos ansiógenos.
Estes dois modelos de ansiedade correspondem a duas entidades que denominarei ansiedade exógena, saudável ou normal e ansiedade endógena ou patológica e patogénica por somatização; na pessoa que a sofre existe uma vulnerabilidade que herdou no espaço e nos tempos intra-uterinos, devido a perturbações nas monoaminas biológicas, expressões de crises emocionais ansiógenas sofridas pela mulher-mãe durante a gestação.
A relação entre a ansiedade (esta perturbação do SER que afecta as tres acções com as quais são elaborados os comportamentos – a cognição, a afectividade e a motricidade) e a doença somática desenvolve-se diferente no jovem e no idoso. No jovem adulto a ansiedade é causa de alteraçõea funcionais cárdio-vasculares, respiratórias, digestivas e outras cuja persistência causa a alteração anatómica, isto é, a doença somática; ao contrário, no idoso, a ansiedade encontra a sua causa no orgânico, na “doença” degenerativa de desgaste, de usura, como sejam a osteo-artrose, a osteoporose, o climatério, a metamorfose corporal e, sobretudo, na multimorbilidade condicionante de invalidez que necessariamente é causa de angústia e de depressão. Em qualquer idade também se observa ansiedade iatrogénica por ingestão de anorexígenos, anfetamínas e outros fármacos.
O diagnóstico das ansiedades (exógena e endógena) baseia-se na interpretação dos comportamentos e de sintomas funcionais e orgânicos. A fobia é a expressão mais característica de ansiedade e, embora apresente grande versatilidade, consideraremos apenas as expressões mais frequentemente reveladas pela pessoa que a sofre:
1. Patomorfismo de fobia social em que o ansioso está inseguro e inibido de comunicar por medo de se expor a críticas.
2. Patomorfismo de pânico frequente no hipocondríaco em que a pessoa tem medo de morrer ou de adoecer; neste caso são quase sempre referidas doenças badaladas, actuais.
3. Patomorfismo de agorafobia que surge repentinamente em espaços fechados, em espaços de grandes dimensões, ou surge em grandes alturas; este desconforto pode evoluír para uma situação de pânico.
4. Patomorfismos de histeria, obsessão, depressão e de disfunção sexual, esta traduzida, no homem, por incapacidade de erecção ou por ejaculação precoce e, na mulher, por disfunção orgástica, dispareunia ou frigidez.
Caracterizado o ansioso, há que diferenciar a ansiedade normal da patológica: se a ansiedade é sociogénica, se é desenvolvida por um motivo, e só por um, que é conhecido e concreto e se progressivamente aumenta, esta ansiedade é exógena, é normal e, circunstancialmente, quem a sofre poderá necessitar de ajuda psicoterápica. É exemplo a espera de um filho que tarda; ouve-se a ambulância e noticia-se o acidente duma criança cuja idade é coincidente. Se a ansiedade surge subitamente sem motivo objectivado, se o ansioso sofre fobias múltiplas sem que lhes conheça razões nem conteúdos, a ansiedade é endógena, é patológica. É exemplo o acordar subitamente, em pânico, durante o sono, por um sintoma sonhado que o ansioso pensa poder causar-lhe a morte; ou o doente ter medo de sentir medo. O medo da morte pode suscitar o suicídio.
Na endogenia há quase sempre uma história familiar e a ansiedade revela-se na infância, na adolescência ou no limiar da adultícia.
Os sintomas da ansiedade endógena são expontâneos, autónomes sem terem sido desencadeados por qualquer circunstância conhecida; os mais frequentes são tonturas ou, mais raramente, vertigens, suores frios, parestesias, sensação envolvente de irrealidade, hipersensibilidade ao ruído e à luz, irritabilidade, taquicardia, extrassistolia, constrição na região prè-cordial, na laringe e na faringe, náusea, dispepsia, meteorismo, diarreia, disfrenia que, não raras vezes, quando intensa e prolongada, conduz à síndrome de hiperventilação. O ansioso tem consciência do seu estado mas sente-se impotente para o dominar e sente, em simultâneo, um impulso irresistível para o cigarro e uma pulsão para o alcool que, aliás, lhe resolve a situação; é por isso que a ansiedade é um considerável factor de risco para o alcoolismo e para a toxicomania; quando neste patomorfismo surge a depressão, o doente pode ter juízos que veiculam o suicídio. A regressão é frequente, com somatizações nas áreas corporais que foram atingidas no acto do nascimento: pele, aparelho respiratório, aparelho circulatório e aparelho digestivo; e também, secundariamente, o labirinto e o sistema músculo-esquelético, somatizações traduzidas respectivamente em dermopatias, disfrenias por vezes asmatiformes, extrassistolias ou taquiarritmias ou “picos” hipertensivos, discinesias gastro-esofágicas ou vesiculares ou intestinais (diarreia) e também tonturas ou síndromes vertiginosas e artralgias ou mialgias. Há que distinguir somatizações de doença somática; o início insidioso da síndrome e a fuga do sintoma relaciona-se com uma psicogenia.
A terapêutica do ansioso deve considerar aspectos psicológicos, sociais, culturais, metabólicos e somáticos. Considerando os primeiros, os psico-sócio-culturais, o doente não deve retirar-se da sua vida habitual, sempre que a ambiência em que se situa não seja exageradamente patogénica. O evitamento da ansiedade, pela fuga às situações ansiógenas ou pela denegação da realidade, é um factor de risco. Deve tentar-se, com a ajuda de psicoterapia, ultrapassar a situação patológica. É neste contexto que o médico, investido de humanismo e de compaixão na relação inter pessoal, cria empatia e assim ele é o melhor ansiolítico. Considerando os aspectos metabólicos, devem usar-se ansiolíticos preferindo a valeriana às benzodiazepinas e, dada a latência da depressão na ansiedade, há vantagem no antidepressivo que tenha uma vertente ansiolítica. Considerando os aspectos somáticos da terapêutica, salientem-se os beta-bloqueantes das catecolaminas, se não houver contra-indicações. A terapêutica deve ter a duração mínima de 6 meses e o fármaco deve ser retirado lenta e progressivamente, num desmame não inferior a 2 meses de duração.
Qualquer doença no Idoso é sempre vivida com ansiedade para além da biofísica, numa perspectiva temporal, onde abundam conteúdos de morte; por isso, toda a psicoterapia eficaz tem de ser uma cronoterapia porque tem de conciliar a Pessoa com o seu futuro.
A ansiedade é um estado de preocupação (prè-ocupação); é uma espera desesperada de qualquer coisa, pensada e sentida, a chegar do futuro; é o estado de consciência da frágil condição humana perante o desconhecido; é o conflito entre a consciência de ser senhor-dos-seus-destinos e a submissão ao sentimento de ambivalência perante um fatalismo recusado e simultaneamente aceite. A ansiedade é a vivência duma realidade interna ou externa internalizada, é a sua interpretação cognitiva e afectiva vivida em perspectiva cronológica, na qual o ansioso mobiliza o capital de emoções e de conhecimentos, adquiridos e trazidos do passado, dos espaços e dos tempos em que se situou.
Todo o Ser-humano oscila entre o futuro e o passado, entre a ansiedade e a depressividade, e ansia-se e deprime-se na razão directa do seu humanismo. Assim, não é de estranhar que a ansiedade tenha ocupado médicos, psicólogos, sociólogos, antropólogos, filósofos, escritores e poetas e que todos se tenham empenhado em compreendê-la como característica do Ser-humano.
As expressões de ansiedade são extremamente frequentes. Um estudo que englobou 500 pessoas do concelho de Cascais, 280 das quais foram do sexo feminino, revelou expressividades de ansiedade, consideradas perturbantes, em 80% das mulheres e em 50% dos homens.
A ansiedade pode ser um estado normal, necessário e útil na promoção da Pessoa e na sua defesa perante uma ameaça, ou pode ter uma dimensão muito perturbante e, neste caso, o ansioso necessita de ajuda. Esta última é uma ansiedade que se manifesta desde a infância, é uma ansiedade difusa, permanente e estruturante das personalidades de quem a sofre; é uma ansiedade latente na Pessoa e susceptível de descompensações aos menores estímulos ansiógenos.
Estes dois modelos de ansiedade correspondem a duas entidades que denominarei ansiedade exógena, saudável ou normal e ansiedade endógena ou patológica e patogénica por somatização; na pessoa que a sofre existe uma vulnerabilidade que herdou no espaço e nos tempos intra-uterinos, devido a perturbações nas monoaminas biológicas, expressões de crises emocionais ansiógenas sofridas pela mulher-mãe durante a gestação.
A relação entre a ansiedade (esta perturbação do SER que afecta as tres acções com as quais são elaborados os comportamentos – a cognição, a afectividade e a motricidade) e a doença somática desenvolve-se diferente no jovem e no idoso. No jovem adulto a ansiedade é causa de alteraçõea funcionais cárdio-vasculares, respiratórias, digestivas e outras cuja persistência causa a alteração anatómica, isto é, a doença somática; ao contrário, no idoso, a ansiedade encontra a sua causa no orgânico, na “doença” degenerativa de desgaste, de usura, como sejam a osteo-artrose, a osteoporose, o climatério, a metamorfose corporal e, sobretudo, na multimorbilidade condicionante de invalidez que necessariamente é causa de angústia e de depressão. Em qualquer idade também se observa ansiedade iatrogénica por ingestão de anorexígenos, anfetamínas e outros fármacos.
O diagnóstico das ansiedades (exógena e endógena) baseia-se na interpretação dos comportamentos e de sintomas funcionais e orgânicos. A fobia é a expressão mais característica de ansiedade e, embora apresente grande versatilidade, consideraremos apenas as expressões mais frequentemente reveladas pela pessoa que a sofre:
1. Patomorfismo de fobia social em que o ansioso está inseguro e inibido de comunicar por medo de se expor a críticas.
2. Patomorfismo de pânico frequente no hipocondríaco em que a pessoa tem medo de morrer ou de adoecer; neste caso são quase sempre referidas doenças badaladas, actuais.
3. Patomorfismo de agorafobia que surge repentinamente em espaços fechados, em espaços de grandes dimensões, ou surge em grandes alturas; este desconforto pode evoluír para uma situação de pânico.
4. Patomorfismos de histeria, obsessão, depressão e de disfunção sexual, esta traduzida, no homem, por incapacidade de erecção ou por ejaculação precoce e, na mulher, por disfunção orgástica, dispareunia ou frigidez.
Caracterizado o ansioso, há que diferenciar a ansiedade normal da patológica: se a ansiedade é sociogénica, se é desenvolvida por um motivo, e só por um, que é conhecido e concreto e se progressivamente aumenta, esta ansiedade é exógena, é normal e, circunstancialmente, quem a sofre poderá necessitar de ajuda psicoterápica. É exemplo a espera de um filho que tarda; ouve-se a ambulância e noticia-se o acidente duma criança cuja idade é coincidente. Se a ansiedade surge subitamente sem motivo objectivado, se o ansioso sofre fobias múltiplas sem que lhes conheça razões nem conteúdos, a ansiedade é endógena, é patológica. É exemplo o acordar subitamente, em pânico, durante o sono, por um sintoma sonhado que o ansioso pensa poder causar-lhe a morte; ou o doente ter medo de sentir medo. O medo da morte pode suscitar o suicídio.
Na endogenia há quase sempre uma história familiar e a ansiedade revela-se na infância, na adolescência ou no limiar da adultícia.
Os sintomas da ansiedade endógena são expontâneos, autónomes sem terem sido desencadeados por qualquer circunstância conhecida; os mais frequentes são tonturas ou, mais raramente, vertigens, suores frios, parestesias, sensação envolvente de irrealidade, hipersensibilidade ao ruído e à luz, irritabilidade, taquicardia, extrassistolia, constrição na região prè-cordial, na laringe e na faringe, náusea, dispepsia, meteorismo, diarreia, disfrenia que, não raras vezes, quando intensa e prolongada, conduz à síndrome de hiperventilação. O ansioso tem consciência do seu estado mas sente-se impotente para o dominar e sente, em simultâneo, um impulso irresistível para o cigarro e uma pulsão para o alcool que, aliás, lhe resolve a situação; é por isso que a ansiedade é um considerável factor de risco para o alcoolismo e para a toxicomania; quando neste patomorfismo surge a depressão, o doente pode ter juízos que veiculam o suicídio. A regressão é frequente, com somatizações nas áreas corporais que foram atingidas no acto do nascimento: pele, aparelho respiratório, aparelho circulatório e aparelho digestivo; e também, secundariamente, o labirinto e o sistema músculo-esquelético, somatizações traduzidas respectivamente em dermopatias, disfrenias por vezes asmatiformes, extrassistolias ou taquiarritmias ou “picos” hipertensivos, discinesias gastro-esofágicas ou vesiculares ou intestinais (diarreia) e também tonturas ou síndromes vertiginosas e artralgias ou mialgias. Há que distinguir somatizações de doença somática; o início insidioso da síndrome e a fuga do sintoma relaciona-se com uma psicogenia.
A terapêutica do ansioso deve considerar aspectos psicológicos, sociais, culturais, metabólicos e somáticos. Considerando os primeiros, os psico-sócio-culturais, o doente não deve retirar-se da sua vida habitual, sempre que a ambiência em que se situa não seja exageradamente patogénica. O evitamento da ansiedade, pela fuga às situações ansiógenas ou pela denegação da realidade, é um factor de risco. Deve tentar-se, com a ajuda de psicoterapia, ultrapassar a situação patológica. É neste contexto que o médico, investido de humanismo e de compaixão na relação inter pessoal, cria empatia e assim ele é o melhor ansiolítico. Considerando os aspectos metabólicos, devem usar-se ansiolíticos preferindo a valeriana às benzodiazepinas e, dada a latência da depressão na ansiedade, há vantagem no antidepressivo que tenha uma vertente ansiolítica. Considerando os aspectos somáticos da terapêutica, salientem-se os beta-bloqueantes das catecolaminas, se não houver contra-indicações. A terapêutica deve ter a duração mínima de 6 meses e o fármaco deve ser retirado lenta e progressivamente, num desmame não inferior a 2 meses de duração.
Qualquer doença no Idoso é sempre vivida com ansiedade para além da biofísica, numa perspectiva temporal, onde abundam conteúdos de morte; por isso, toda a psicoterapia eficaz tem de ser uma cronoterapia porque tem de conciliar a Pessoa com o seu futuro.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Homossexualidades
Um comportamento homossexual não satisfaz a Consciência Teleológica da Espécie mas traduz o triunfo do Ser-humano sobre o determinismo da Espécie; afirma-se ele senhor do seu destino. É o triunfo do SER sobre o corpo, da Vida sobre a existência, do “Espírito” sobre a materialidade.
O Ser-humano é, enquanto existente, totalidade psico-somática; possui um corpo que lhe serve para se expressar, durante a Vida existencial, em comportamentos dialécticos condicionados pelos espaços eco-sociais e pelos tempos em que se tem situado. Estes comportamentos são, uns primários e outros adquiridos, elaborados; enquanto estes são aprendidos através da evolução ontogenética, aqueles, os primários, são filogenéticos, isto é, relacionam-se com o desenvolvimento da Espécie, visando a sua perpetuidade, sujeitos ao Princípio da Conservação da Vida existencial do indivíduo ao serviço dos interesses da Espécie. Estes são tres: beber, comer e copular; são comportamentos de grande complexidade, compulsivos, hipotalâmicos, teleonómicos. É por eles que o recém-nascido vive e sobrevive de modo inato e reflexo, sabendo executá-los sem saber que sabe, factualidade mantida através da existência do indivíduo. É por eles que, numa visão universalista, o Ser-humano se transcende em perpetuidade porque cada indivíduo, não obstante albergar a precaridade no seu corpo, é receptáculo de células germinativas que veículam a imortalidade/continuidade da Espécie quando, e só quando, dinamizadas por acções heterossexuais no comportamento da cópula, - comportamento, por si só, primário, hipotalâmico, corporal, elaborado exclusivamente com acções instintivas, teleonómicas, enquanto o indivíduo julga fazer livremente o que faz por fatalidade, mas por uma “fatalidade” contaminada por conveniências, repressões moralistas, inibições.
Sexualidade é um comportamento humano que não é reductível à cópula. Sexualidade é afectividade expressa em acções inter-individuais, as quais podem, ou não, incluír cópula. Em consequência, a sexualidade é hetero e homo. Reduzir a sexualidade à cópula (falsa arquitrave da heterossexualidade) é reduzir a mulher e o homem a seres instintivos, cegos que servem a Espécie impulsionados pelo cio, isto é, é animalizar o ser humano; esta factualidade tem sido e continua submissa a um indesejável clericalismo fixado e anquilosado num obscurantismo fiel às origens da “moral” judaico-cristã repressora, que mergulha as suas raízes no simbolismo do complexo “pecado original” relacionado com a “árvore do conhecimento do Éden” e configurado numa virtual maternidade assexual, sem prazer e, por isso, santificante da mulher. É esta doutrina agonista que, ainda hoje, defende a procriação como justificação exclusiva da heterossexualidade e que anatematiza a homossexualidade.
A homossexualidade é um comportamento latente em todo o ser-humano, é um estádio do desenvolvimento afectivo-sexual, como se infere do facto de toda a relação primária sujeito-objectum, até à idade de seis meses, ser egocêntrica, isto é, o Outro é, para a criança, apenas a sensação d’Ele; é a emoção da própria criança e a sensação na mesma (criança). Este contexto permanece, de forma inconsciente, durante toda a existência vivida do indivíduo ( hoje criança, mais tarde adolescente, adulto ou idoso), já que uma realidade externa só o é se for, e só depois de ser, uma realidade interna; é que uma realidade é para cada ser o que cada qual pensa e sente dela. A sexualidade implicitando uma relação com o Outro, na sequência objectivada – interiorizada –operada –concretizada, é marcada por uma problemática relacional de dimensão social, conflitual, estruturante e histórica e confere uma evolução afectivo-sexual (hetero ou homo) ao Ser.
Esta dimensão inicia-se na família e a sua génese está no Édipo.
A homossexualidade, assimilada através duma linguagem corporal, não sendo mórbida, pode apresentar-se com expressões que vão do “normal” a um patomorfismo que traduz uma perturbação da afectividade, expressões que são mecanismos de defesa duma angústia depressiva ou fóbica iniciada, experimentada e estruturada antecedentemente, entre os seis meses e os cinco anos de idade cronológica da criança; portanto, a patologia não está na homossexualidade mas sim no ser humano que a expressa.
Este psicomorfismo latente através da Vida existencial do Ser – humano apresenta quatro modelos:
1. Ser inseguro, imaturo, com uma homossexualidade perversa ou pura da relação mãe –criança no estádio prè-Edipiano, coincidente com a fase sensório-motora de Piaget, em que a criança desenvolve progressivamente uma sexualidade em Si, de Si e para Si, isto é, a criança é, em simultâneo, sujeito e objectum. Este contexto, de cariz homossexual, revela-se na heterossexualidade, quando o Ser-humano deixa de se amar em Si para se amar no Outro; o homem, por exemplo, projecta-se na mulher e ama-se nela para, mais tarde, atingida a maturidade afectiva, ser Ser para Outrem.
2. Ser neurótico com uma homossexualidade na qual revela misoginia por recusa do Édipo e de todos os seres semelhantes à mãe.
3. Ser psicótico esforçando-se em reafirmar o ego fragilizado numa super estima mórbida; há regressão à fase edipiana durante a qual, para a criança, o Ser desejado e amado (mãe) era aquele que gostava mais dela (criança) e não aquele de quem ela (criança) mais gostava. O indivíduo, nesta perturbação, aparece como Ser controlador do Outro; é a génese do ciume. Os homossexuais psicóticos (este contexto aparece também na heterossexualidade) não toleram interferências de terceiros e, quando as há, tornam-se agressivos até ao crime. Há regressão ao estádio da triangulação em que a criança se sentia privada da relação linear e exclusiva com sua mãe por aparecimento do pai; a mãe, não obstante gostar dela, gostava também do pai; isto é, no seu espaço surge uma ameaça que tem de ser destruída; está então estabelecida uma dialéctica de agressividade que consubstancia o ciúme.
4. Ser saudável com uma homossexualidade normal; é este um estádio de desenvolvimento e de transição, frequente em idades prè- púberes, para a heterossexualidade normal.
A doença da afectividade pode causar paragem ou atrazo na evolução do desenvolvimento afectivo e perturbar gravemente a sexualidade normal seja a homossexualidade ou a heterossexualidade.
O Ser-humano é, enquanto existente, totalidade psico-somática; possui um corpo que lhe serve para se expressar, durante a Vida existencial, em comportamentos dialécticos condicionados pelos espaços eco-sociais e pelos tempos em que se tem situado. Estes comportamentos são, uns primários e outros adquiridos, elaborados; enquanto estes são aprendidos através da evolução ontogenética, aqueles, os primários, são filogenéticos, isto é, relacionam-se com o desenvolvimento da Espécie, visando a sua perpetuidade, sujeitos ao Princípio da Conservação da Vida existencial do indivíduo ao serviço dos interesses da Espécie. Estes são tres: beber, comer e copular; são comportamentos de grande complexidade, compulsivos, hipotalâmicos, teleonómicos. É por eles que o recém-nascido vive e sobrevive de modo inato e reflexo, sabendo executá-los sem saber que sabe, factualidade mantida através da existência do indivíduo. É por eles que, numa visão universalista, o Ser-humano se transcende em perpetuidade porque cada indivíduo, não obstante albergar a precaridade no seu corpo, é receptáculo de células germinativas que veículam a imortalidade/continuidade da Espécie quando, e só quando, dinamizadas por acções heterossexuais no comportamento da cópula, - comportamento, por si só, primário, hipotalâmico, corporal, elaborado exclusivamente com acções instintivas, teleonómicas, enquanto o indivíduo julga fazer livremente o que faz por fatalidade, mas por uma “fatalidade” contaminada por conveniências, repressões moralistas, inibições.
Sexualidade é um comportamento humano que não é reductível à cópula. Sexualidade é afectividade expressa em acções inter-individuais, as quais podem, ou não, incluír cópula. Em consequência, a sexualidade é hetero e homo. Reduzir a sexualidade à cópula (falsa arquitrave da heterossexualidade) é reduzir a mulher e o homem a seres instintivos, cegos que servem a Espécie impulsionados pelo cio, isto é, é animalizar o ser humano; esta factualidade tem sido e continua submissa a um indesejável clericalismo fixado e anquilosado num obscurantismo fiel às origens da “moral” judaico-cristã repressora, que mergulha as suas raízes no simbolismo do complexo “pecado original” relacionado com a “árvore do conhecimento do Éden” e configurado numa virtual maternidade assexual, sem prazer e, por isso, santificante da mulher. É esta doutrina agonista que, ainda hoje, defende a procriação como justificação exclusiva da heterossexualidade e que anatematiza a homossexualidade.
A homossexualidade é um comportamento latente em todo o ser-humano, é um estádio do desenvolvimento afectivo-sexual, como se infere do facto de toda a relação primária sujeito-objectum, até à idade de seis meses, ser egocêntrica, isto é, o Outro é, para a criança, apenas a sensação d’Ele; é a emoção da própria criança e a sensação na mesma (criança). Este contexto permanece, de forma inconsciente, durante toda a existência vivida do indivíduo ( hoje criança, mais tarde adolescente, adulto ou idoso), já que uma realidade externa só o é se for, e só depois de ser, uma realidade interna; é que uma realidade é para cada ser o que cada qual pensa e sente dela. A sexualidade implicitando uma relação com o Outro, na sequência objectivada – interiorizada –operada –concretizada, é marcada por uma problemática relacional de dimensão social, conflitual, estruturante e histórica e confere uma evolução afectivo-sexual (hetero ou homo) ao Ser.
Esta dimensão inicia-se na família e a sua génese está no Édipo.
A homossexualidade, assimilada através duma linguagem corporal, não sendo mórbida, pode apresentar-se com expressões que vão do “normal” a um patomorfismo que traduz uma perturbação da afectividade, expressões que são mecanismos de defesa duma angústia depressiva ou fóbica iniciada, experimentada e estruturada antecedentemente, entre os seis meses e os cinco anos de idade cronológica da criança; portanto, a patologia não está na homossexualidade mas sim no ser humano que a expressa.
Este psicomorfismo latente através da Vida existencial do Ser – humano apresenta quatro modelos:
1. Ser inseguro, imaturo, com uma homossexualidade perversa ou pura da relação mãe –criança no estádio prè-Edipiano, coincidente com a fase sensório-motora de Piaget, em que a criança desenvolve progressivamente uma sexualidade em Si, de Si e para Si, isto é, a criança é, em simultâneo, sujeito e objectum. Este contexto, de cariz homossexual, revela-se na heterossexualidade, quando o Ser-humano deixa de se amar em Si para se amar no Outro; o homem, por exemplo, projecta-se na mulher e ama-se nela para, mais tarde, atingida a maturidade afectiva, ser Ser para Outrem.
2. Ser neurótico com uma homossexualidade na qual revela misoginia por recusa do Édipo e de todos os seres semelhantes à mãe.
3. Ser psicótico esforçando-se em reafirmar o ego fragilizado numa super estima mórbida; há regressão à fase edipiana durante a qual, para a criança, o Ser desejado e amado (mãe) era aquele que gostava mais dela (criança) e não aquele de quem ela (criança) mais gostava. O indivíduo, nesta perturbação, aparece como Ser controlador do Outro; é a génese do ciume. Os homossexuais psicóticos (este contexto aparece também na heterossexualidade) não toleram interferências de terceiros e, quando as há, tornam-se agressivos até ao crime. Há regressão ao estádio da triangulação em que a criança se sentia privada da relação linear e exclusiva com sua mãe por aparecimento do pai; a mãe, não obstante gostar dela, gostava também do pai; isto é, no seu espaço surge uma ameaça que tem de ser destruída; está então estabelecida uma dialéctica de agressividade que consubstancia o ciúme.
4. Ser saudável com uma homossexualidade normal; é este um estádio de desenvolvimento e de transição, frequente em idades prè- púberes, para a heterossexualidade normal.
A doença da afectividade pode causar paragem ou atrazo na evolução do desenvolvimento afectivo e perturbar gravemente a sexualidade normal seja a homossexualidade ou a heterossexualidade.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Nada
Na existência, habitualmente vivida alienadamente, "Nada" é coisa nenhuma; é também um mito, - o Ser humano, porque desatento ao viver a sua existência, necessita de mitos; é ainda uma palavra que, em contexto, significa alguma coisa recusada, minimizada, anulada. "Nada" é algo esquecido no subconsciente ou no Inconsciente. Nunca o pensamento, a alegria e a tristeza, ainda que enterrados na nossa interioridade, fundeados no subconsciente ou desconhecidos no Inconsciente, poderão perder-se no "Nada"; eles influenciam e condicionam as acções e os comportamentos cognitivos e emocionais, os nossos gostos, preferências e decisões mesmo quando o nosso existir paulatinamente declina na lenta adaptação à "morte". O arquetípico Nada é o Todo.
Veneza
Havemos de seguir em frente o itinerário de regresso a Veneza.
Hei-de palmilhar aquelas ruas marginais que me levaram ao cais, onde encontrei a alma veneziana de gente sem nome, do marinheiro, do estudante, do artista, do boémio, do intelectual, do angustiado, - do povo de Veneza.
Ao entardecer, quando começa a haver poente no canal e o Relógio da Torre badala as sete, hei-de sentar-me convosco numa daquelas mesas que atravancam São Marcos, a saborear o gelado com o prazer do costume mas tão diferente do habitual, naquele lugar e naquela hora, porque alheado na emoção causada pelo fascínio daquela praça - chic prostituta que, ao crepúsculo, entrega com elegância e sensualidade o seu corpo à multidão desconhecida e promíscua a deambular, entre revoadas de pombos, ao som de melodias de Chopin, de List e Debussy vindas das Arcadas,executadas por castiças orquestras; e, à mesma hora e no mesmo lugar, entrega a sua alma aos que, já nostálgicos, partem nas gôndolas, e aos apaixonados, aos artistas e também a mim, emocionalmente refém dum fascínio que me perde no passado imagético feito realidade naquele lugar e àquela hora.
Havemos de voltar a viver São Marcos. Temos de regressar a Veneza.
Hei-de palmilhar aquelas ruas marginais que me levaram ao cais, onde encontrei a alma veneziana de gente sem nome, do marinheiro, do estudante, do artista, do boémio, do intelectual, do angustiado, - do povo de Veneza.
Ao entardecer, quando começa a haver poente no canal e o Relógio da Torre badala as sete, hei-de sentar-me convosco numa daquelas mesas que atravancam São Marcos, a saborear o gelado com o prazer do costume mas tão diferente do habitual, naquele lugar e naquela hora, porque alheado na emoção causada pelo fascínio daquela praça - chic prostituta que, ao crepúsculo, entrega com elegância e sensualidade o seu corpo à multidão desconhecida e promíscua a deambular, entre revoadas de pombos, ao som de melodias de Chopin, de List e Debussy vindas das Arcadas,executadas por castiças orquestras; e, à mesma hora e no mesmo lugar, entrega a sua alma aos que, já nostálgicos, partem nas gôndolas, e aos apaixonados, aos artistas e também a mim, emocionalmente refém dum fascínio que me perde no passado imagético feito realidade naquele lugar e àquela hora.
Havemos de voltar a viver São Marcos. Temos de regressar a Veneza.
Tempo
A Felicidade é conteúdo do Tempo, do Eterno Presente; disse-me Einstein, numa destas noites, em um inesquecível sonho.
No Tempo-Felicidade não encontro saudade de passados, nem incertezas do presente, nem a inquietação de futuro; não encontro a velhice nem a infância, não encontro a adolescência nem a adultícia -- interpretações de percurso pseudocientíficas, tempos de ilusões, momentos de alienação.
Continuarei Feliz no Tempo, tempo sem Princípio nem Fim, continuarei Feliz em Eternidade; mas hei-de voltar, dizer isto mesmo e prosseguir até ao limite, até além de mais além, até ONDE – virtualidade necessária às minhas cogitações e, pelas minhas limitadas aptidões, imprescindível nos meus curtos vôos com asas feitas de resquícios de “penas” que me habitam o inconsciente.
No Tempo-Felicidade não encontro saudade de passados, nem incertezas do presente, nem a inquietação de futuro; não encontro a velhice nem a infância, não encontro a adolescência nem a adultícia -- interpretações de percurso pseudocientíficas, tempos de ilusões, momentos de alienação.
Continuarei Feliz no Tempo, tempo sem Princípio nem Fim, continuarei Feliz em Eternidade; mas hei-de voltar, dizer isto mesmo e prosseguir até ao limite, até além de mais além, até ONDE – virtualidade necessária às minhas cogitações e, pelas minhas limitadas aptidões, imprescindível nos meus curtos vôos com asas feitas de resquícios de “penas” que me habitam o inconsciente.
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