domingo, 5 de fevereiro de 2012

Resposta ao Doutor António Gentil Martins

O "encontro" do óvulo pelo espermatozoide não será o início da Vida, porque estas entidades são já Vida existencial, isto é, Vida materializada. Deste encontro/junção resulta, não Vida, que já era, mas sim existência concretizada num corpo, o ovo dinamizado pela vitalidade ontogénica.
A Vida é absoluta, é um todo-contínuo antes e depois da existência. É a matéria, o corpo, que confere existência, isto é, algo percepcionado ou perceptível pelos 5 sentidos. A Vida é realidade escondida em além das aparências sensíveis; a existência é concreta, objectivada, materializada e, por isso, sujeita à temporalidade da finitude do corpo. A Vida é perene; nela estão contidas as existências e os seus tempos, mas ela está no Tempo, outro todo-contínuo, donde a existência tira os seus tempos os quais apenas valem pelos seus conteúdos que são os comportamentos daquele que vive a existência.
A decisão de legislar a interrupção da gravidez não se correlaciona com ciência, mas sim com desejos de Felicidade e de Vida ditadas por conteúdos emocionais e sociais e também, muitas vezes com conveniências egoístas sustentadas por comportamentos ideológicos iníquos, variáveis com os tempos e os espaços.
O que está consagrado é o direito à existência desde o início até à morte, sendo certo que morrer é não existir, é perder o corpo. Não é possível matar a Vida, mas é cientificamente exequível libertá-la da existência.
A autonomia e a autodeterminaçâo são capacidades, isto é, aptidões centrais do Ser humano; as suas expressões, isto é, a sua concretização é aptidão periférica, possibilidade, só possível se o corpo estiver apto para tal, é uma sub-estrutura do Ser.
O suicídio e a obstinação são comportamentos mórbidos dum Ser humano perturbado que necessita de ajuda.
Não concordo com a pena-de-morte; é inadmissível que se interrompa a vivência da experiência e a consciencialisação das acções (cognição, afectividade e motricidade) do criminoso, que deve continuar a existir para que, ajudado, medite os seus actos.
Se o Curso de Medicina não ajuramenta, pela formação que dá aos alunos, não se cumpre. A conduta do Médico não pode nem deve ser pautada por juramentos, palavras simbólicas, mas deve-o ser por sentimentos estruturantes de compaixão intensificada pela meditação e pela consciência de Si.

domingo, 15 de janeiro de 2012

O Conteúdo dos Tempos


É desejável racionalidade baseada mais no conhecimento histórico dos povos do que em ideologias que encontram só dentro delas a sua própria verdade, apropriando-se de materiais favoráveis e rejeitando os ameaçadores, ou em idealismos que criam formas sofisticadas de racionalidade para que, com realismo, se atinjam as metas que conduzem ao objetivo comum.

Os egoísmos partidários, sempre edificados em hipocrisia, no materialismo, ou em invejas e frustrações, e também os nacionalismos e o individualismo, são os declives que conduzem à dispersão e a lutas iníquas, tão defendidas por aqueles que recusam a integração, a solidariedade, o Afecto e a Paz, génese do vigor construtivo que conduz ao Bem comum dos povos.

A carência da frontalidade feita de honestidade e dignidade é a causa de fatualidades como a actual instabilidade social, económica, moral, ética e, secundariamente, de saúde não só física, mas também psicológica e espiritual, instabilidade expressa em ilicitudes não só de conteúdo material, mas também de “psicomatérias” degradantes escondidas em ideologias que perderam a nobreza que as construiram para se diluirem em falsos altruísmos oportunistas dinamisados pelo ódio, pela intriga, pela inveja, pela destruição.

É este clima psicossocial que preside a comportamentos como os da indesejável criatura fortemente inclinada à megalomania psicótica, tingida de défice duma educação incompatível com o respeito mútuo que deve presidir às suas relações inter-individuais; criatura que, por reincidência ou pertinácia, monopoliza o diálogo, mais gritado que falado, porque ainda não aprendeu que dialogar é mais saber ouvir que saber dizer; mas não sabe dizer nem sabe ouvir e, por isso, compensando o seu défice, gesticula com ridícula amplitude enquanto faz saltar, na cadeira que o suporta, a sua massa de glúteos; criatura imatura que, num dos programas televisivos, se expressou, en-“crespada”, com tristes e atrevidos comentários, realçados pela ignorância, dirigidos a entidades, que têm dedicado a sua Vida existencial a nobres causas, a quem os portugueses muito devem.

A carência de entendimento conduz à ignorância que, na ausência de cidadania, se converte em atrevimento paranoide.
Para esta pobre criatura não peço compreensão porque não é possível compreendê-la, mas solicito condescendência e a tolerância que, por força de cidadania, faz dela um tolerado social, a quem desejo que seja humilde para que não seja humilhado.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O Caminho


A caminhar procuro
sem ter tempo de parar.

Tenho medo de parar
necessidade de cansar
que descansar é desistir
é matar
o desejo de chegar
que justifica a existência
em continuidade de permanência;
não o desejo de chegar
mas o de caminhar
sem nunca chegar.

Caminhar para o sonho,
para o Onde que não alcanço.

O que alegra não é o caminho,
é a caminhada que faz o caminho,
é o perpétuo aproximar
pavimentado de esperança
realizada
em realizações continuadas
e nunca terminadas.

É  Caminhar  Cansar  Viver e Morrer
dentro da esperança
sem nunca desesperar.

sábado, 8 de outubro de 2011

O Homem, A Cidade, A Paisagem, A Planície, A Sociedade

O que faz a Cidade é a relação entre as medidas do seu espaço e os acontecimentos do seu tempo. Os acontecimentos são a factualidade comportamental do Ser humano, são a cultura que cresceu no espaço da Cidade, através do tempo, por Ele vivenciada como actor e expectador. O que faz a Cidade é uma dialéctica emocional de causalidade recíproca.

Também a Paisagem não foi o Ser humano que a fez, mas é Ele que a interpreta e a vive, moldado por ela, que a reabilita e conserva emocionado pela ambiência; isto faz entender as diferenças entre as interioridades do Poeta ou do Pintor alentejano e as do minhoto, como também a diferença dos comportamentos do algarvio e do beirão. É por isto que destruir gratuitamente a Paisagem é um atentado criminoso contra a Humanidade e a Natureza; é um desequilíbrio irreversível, projectado num futuro já hoje presente, que adultera as relações humanas.

E ainda a Planície de lonjuras, o Alentejo, envolve-nos de silêncios e melancolia, de paralisia nostálgica, ilusão e fantasia insistentemente renovada por sucessivos enganos, de espaço e doutros; a sua alma tem uma componente sebastiânica e está enfeitiçada pela mentira. Esta é a interpretação de quem a interioriza com a criatividade que Ela oferece a quem a vivencia. É de uma riqueza inebriante, de um êxtase emocional, em que se intrincam ilusões da Realidade com realidades da Ilusão e onde um misticismo estético nos envolve na imarescível quietude da Tarde.

Ruinosamente, o que hoje predomina e caracteriza a sociedade tida convencionalmente por “civilizada”, a nossa Sociedade Civil, é a avidez insaciável de ilícitas riquezas, de alienantes gozos, é o incêndio das sensações, é o triunfo dos instintos, é o orgulho do luxo na ausência do bom gosto, são os crimes do dinheiro, é a mentira convencional, é a besta primitiva animal e brutal convencionalmente mascarada em refinada elegância e forma de maneiras, vestida de smoking, é a ignorância; é o não-saber que a fundamental virtude do dinheiro é possuí-lo em suficiência (e não mais) que nos permita não ter preocupações em o ter, as quais são diferentes para cada qual, para que, libertos e em exaltação afectiva, possamos ser a glória do Trabalho que redime e eleva, e nunca sermos as vítimas embrutecidas do trabalho que escravisa, envilece e destroi. Quem trabalha com Amor, consciente que ajuda o Outro, é feliz, Felicidade alicerçada no elevado sentido social. Quem trabalha exclusivamente por dinheiro não tem dignidade e é escravo, porque nunca se sentirá justamente pago. O Trabalho não se vende, ele vale sempre mais. O trabalhador recebe o convencionado para poder trabalhar em Liberdade.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Inquietação versus Psicanálise


Em mim, em quem tenho sido e em quem sou, vive a saudade de Quem me sonho, o que inquieta cada instante do meu existir.

A impertinente megalomania flagela o homem que sou, dimensionado aos espaços e tempos em que me situo, através da vida existencial, submisso à memória conferida pela Consciência Teleológica da Espécie, enquanto aspiro ao Homem situado no Tempo-Espaço, ao Homem situado na Eternidade.
São as dimensões e as insuficiências do homem concreto que permitem o sonho que me pensa, sem me abismar no absurdo.

Eu, que estou pensando Universalidade estou, conscientemente limitado à minha exiguidade, a sonhar delirantemente o Homem que me vive.

Serei eu homem Real? Sou certamente um homem existente, corporalmente existente; um homem validamente concreto na minha personalizada aparência.

Qual a realidade do Eu?  Pensar-Me Real não será sonho? A realidade não será apenas um conceito sem correspondência a uma realidade? Será Verdade o que penso? Mas, se fosse Verdade o que penso ou o que sonho já não pensaria, por supérfluo. Será que  teimo em viver euforicamente a insatisfação mágica da procura, na inconsciência da minha frustração?

A dúvida e a insatisfação são bem mais sãs que a sua ausência, a despeito da apregoada bem-aventurada  pobreza evangélica; no entanto, estou convicto que as ideias de Eternidade e as de Essencialidade são  o produto mais perfeito que o Processo Mental constroi, o qual vigoriza a Obra do Homem, na sua criatividade de demiurgo.

Estas equações da consciência constrangem-me a uma viagem na interioridade do existir, confrontando-me com as tres camadas da psique: o inconsciente, o consciente e o sub-consciente.
A inconsciência é a “psicomatéria” da Essência do Ser, é espiritualidade; é Eu inato, inexistente, imaterial, que, em evolução ascendente para o Limite, é mudado/acrescentado pela consciência durante a vida existencial.

A consciência é um psicoprocesso do Ser humano inerente à vida existencial; é condicionada pelo inconsciente e pelas memórias teleonómicas da Espécie. A consciência não é um produto do cérebro mas é este que, tomando conhecimento dela, a anuncia; através do Processo Mental, ela impressiona o cérebro que, na sua reactividade bioquímica, gera pensamento emocional e, pensando o pensamento, toma conhecimento dum sentimento que é a consciência.

O subconsciente é um “armazém” de realidades conscientes inibidas, reprimidas ou rejeitadas.

Mente não é cérebro; deve ser entendida como Processo Mental, “rapport” entre inconsciente e consciente, acção entre o Ser e o cérebro.

Em síntese,
O Inconsciente é “substância” espiritual da Vida.
O consciente e o Subconsciente são “substâncias” psicológicas da existência.
O Cérebro é o órgão corporal mais relacionável com a Vida; é o único órgão que concede ao Ser humano conhecimento de ter consciência de que é consciente de ser consciente de Si.

domingo, 7 de agosto de 2011

VERDADE e outros Ilusionismos

O Artista Encontra.
O Cientista Procura.
O cientista acredita na Ciência.
O Religioso acredita no Dogma.
O religioso e o cientista são religiosos; aquele religa-se a crenças dogmáticas e o segundo religa-se a crenças científicas.

Ciência é emergência do erro continuado que a sustenta, na sua tarefa de autocrítica correctora do precário, mas necessário e conveniente erro formulado. É a autocrítica científica que dinamiza o Cientista a fazer Ciência; ele faz Ciência das ciências, faz Epistemologia.

A crítica exige racionalização. O racionalista nunca é detentor da Verdade, mas sim e apenas de verdades, o que o perpetua nos seus raciocínios; por isso, discute verdades, as dos outros e a sua. Assim, acredita e faz crer que se aproxima da Verdade.

O iluminista é um racionalista que se esforça por ser claro, esclarecedor, compreendido, ao invés do racionalista convencional que ortodoxamente é hermético, escuro, eloquente e, por vezes, defende-se escondendo a ignorância na erudição.

A Verdade é Limite, é Absoluto, pelo que é inatingível, eternamente inacessível ao Ser humano que, enquanto cientista, anancasticamente a procura. O religioso não a procura porque, alegada e pretensamente, já a possui através do dogma, da crença irrefutável, tranquilizadora, paradísica. O artista Encontra-a na Criatividade, na Revelação, na Dádiva, - imagem e semelhança da obra da “divindade”, símbolo conceptualizado de Vida, de cada Ser humano.

Paradigma de Mudança

O tempo é de crise; a “substância” da crise é mudança, - mudança em viver a existência. A Hora é instável; o futuro nela contido é feito de insegurança angustiada, de perda de élan, de pessimismo.

Todo o Ser humano anela por uma vida existencial progressivamente melhor. Todo o Ser humano sofre injustiças que despertam ódios raras vezes inconsequentes, quase sempre de consequências dramáticas para a sua interioridade, expressas em reactividades comportamentais, estas também manchadas por um mimetismo injusto.

Estes comportamentos são emocionais e, por o serem, fogem à racionalidade pelo que o injustiçado tem dificuldade em compreender e em suportar a injustiça que o agride, atitude que lhe seria muito menos penosa que combatê-la com acções adulteradas (pensamentos, sentimentos e movimentos), com as quais elabora aqueles comportamentos reactivos, num contexto de acção-reflexão contaminado; melhor e mais digno é sofrê--la que praticá-la.

Este cenário, de desequilíbrios sem vislumbres de capacidades reequilibrantes, constitui o Estado do Mundo globalizado; conhecidas as suas causas, será uma inevitabilidade a mudança deste modelo sócio-económico. A relevância determinante desta complexa realidade estará no facto de a nossa inteligência e saberes se terem desenvolvido ao serviço do egoísmo, do ódio, da ambição exclusivamente material e na ausência de Espiritualidade que é a nossa Essencialidade, “cerne” dos verdadeiros valores humanistas que promovem, rumo à “Perfeição”.

Cada Qual terá de ser consciente de Si, dos limites e precaridades das suas possibilidades/capacidades materiais, para que não as ultrapasse acicatado pela ambição ilícita; consciente também das insuficiências dos outros (das materiais e das espirituais) para que, no alcance dos seus desejos, os realize sem atropelos injustos; e ainda terá de ser também respeitador das diferenças entre si e os outros, compreendendo-as e aceitando-as para que, livre de emoções invejosas que geram ódios, ressentimentos e infelicidade, admire e se congratule com a riqueza desses outros.

A meditação deve ser o sustentáculo deste novo paradigma no qual o Ser humano, através do pensamento dinamizado por nobres emoções, encontrará a dignidade de outros parâmetros de riqueza. A materialidade não deve continuar a ser apanágio exclusivo do”poder”; ela é, por definição de princípio, tendencial e progressivamente insatisfatória e sempre precária pelo que será necessário, imprescindível, mas apenas suficiente, que cada Ser humano compreenda que só o É entendido em globalidade sistémica biopsicossocial e espiritual, situado no Tempo e nos espaços entre outros, em dialéctica, a viver esta sua existência em “osmose” com o viver existencial de todos os outros; compreenda que ele é os outros, os outros são ele, todos somos nós.

Há muita “pobre gente rica”, entre a qual, provavelmente, alguns de nós se encontram, que é invejada por muitos de nós, por inconsciência, por carência de ética ou por défice de lucidez, - invejas escondidas e desenvolvidas num fraudulento “altruísmo” simulado e politizado em ideologias que negam a sua alma, a sua essencialidade, quando se concretizam, submissas, a sub-reptícios interesses “políticos” e que, para sobreviverem, procuram na eloquência e dentro de si mesmas a sua própria e pretensa “verdade”; justificam-se protegidas por convenções sociais e cometem religiosamente a ilegitimidade e a desonestidade de se apropriarem de materiais favoráveis e regeitarem os ameaçadores.

É desejável e inevitável que cada qual se afaste de Si próprio, na aproximação dos outros, para que experimente a Felicidade nas felicidades dos outros, naquele instante em que os ajuda a serem felizes; que cada qual lute, durante toda a vida existencial que lhe resta, pela realização dos seus sonhos, sem invejas, sem ódios, sem ressentimentos, vaidades, orgulhos e egoísmos que entristecem e aniquilam. É inevitável que, para nossa Felicidade, o conteúdo do tempo que chega seja de Amor – auto estima e estima pelo outro; que a Solidariedade – o novo rosto da Justiça, da Amizade, da compreensão, da honestidade, da Alegria e do Amor, seja uma constante no modelo de mudança que emerge no tempo que chega; ela mostrar-nos-á a grandeza do Ser humano fundamentada na dimensão espiritual do Ser e jamais na dimensionalidade dos “teres”.

O “ter” traiu-nos a todos, em qualquer um e em todos os cantos do Planeta.

Ninguém é corrupto por ser ou querer ser espiritualmente rico; a corrupção está intimamente ligada a riquezas materiais. Só o rico em espiritualidade pode atingir, em licitude, “riqueza” material que, quando sobeja, é devolvida àquela comunidade que legitimamente lute para a obter; nunca a riqueza deverá ser dada, mas sim honestamente conquistada por Quem a deseje e sempre com o maior respeito e compaixão pelos outros. Que nunca se excluam aqueles que, por défices físicos ou psíquicos ou por retardamento na evolução espiritual, não possam estar na “luta” por melhor qualidade de vida existencial; eles são a génese da nossa Felicidade, encontrada no acto de os ajudar a serem felizes.

...”de cada um, conforme as suas capacidades”
“a cada um de acordo com as suas necessidades”...